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terça-feira, 7 de setembro de 2010

O silêncio

“Estão todos com medo. Todos eles vão mergulhar no silêncio, nas profundezas das suas próprias mentes e almas.”
In, “Comer, orar, amar”, Gilbert, Elizabeth

A frase citada foi retirada do livro que me tem feito companhia nos últimos tempos.
Ao chegar a esta parte da acção, decidi fazer uma pausa na leitura e reflectir na ideia veiculada pela personagem e que lhe está subjacente.
De facto o silêncio incomoda a maioria das pessoas. Não gostamos de o ouvir. Para isso, rodeamo-nos de tudo que consiga anular a sua acção. E por que razão evitamos momentos de silêncio puro? Talvez porque seja através do silêncio que escutamos o mais profundo de nós, que comungamos com o eu verdadeiro, amordaçado, aprisionado nas rotinas do quotidiano, na anulação do que verdadeiramente somos.
É fundamentalmente pelo silêncio que alcançamos o conhecimento de nós próprios, tomamos consciência do que somos, de como somos e nos abrimos à verdade. E porque somos humanos e imperfeitos, a descoberta dos defeitos, que nos formam e condicionam, amedronta-nos.
O barulho distrai o pensamento em manobras de diversão que impedem o diálogo interior.
O silêncio conduz à reflexão, ao conhecimento, à aceitação e à mudança.
Saibamos ouvir o silêncio do coração!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A brincar, a brincar...

Quando pensamos em rotinas substantivamo-las, quase de imediato, com aborrecimento, tédio. No entanto existem certos tipos de rotinas que de tédio nada têm, são pequeno oásis no deserto inóspito de outras rotinas diárias. Essas sim, aborrecidas, entediantes!
O momento do dia dedicado à leitura do Diário de Coimbra é sem dúvida uma fonte de água fresca que sacia a sede de notícias da região.
De vez em quando, para suavizar a seriedade dos assuntos noticiados, eis que surge uma ou outra notícia que, devido ao caricato do relatado, faz sorrir ou mesmo rir com vontade.
Na edição de hoje, logo na primeira página, um título a negrito destacava-se dos restantes: anunciava o repórter que o jogo amigável entre a Académica e o Feirense tinha terminado aos 80 minutos devido a uma estalada dada por um jogador da equipa visitante ao da Briosa.
Ao ler o sucedido não pude deixar de rir com gosto. O sentido de humor colocado na descrição do episódio e a imagem demonstrativa do sururu contribuíram para dar asas à imaginação: De imediato, consegui imaginar o ar atarantado de quem levou o tabefe e a estupefacção de quem assistia ao jogo.
E era um jogo amigável!
Ora se não o fosse...

domingo, 5 de setembro de 2010

Setembro

De todos os meses do ano, Setembro é o que mais me enternece: raiado de amarelos acastanhados e vermelhos alaranjados, embriaga-se com os vapores das uvas vindimadas e, estonteado pelo néctar dos deuses, aconchega-se na Natureza para um descanso reparador.
Setembro dos dias solarengos, do cheiro a terra seca, após as primeiras chuvadas passageiras, da brisa morna que se solta no espaço e nos abraça, acarinha e afaga, despedindo-se do Verão.
Setembro da minha meninice, das férias grandes, vivências adocicadas, dos aromas e dos sentires, embala-me nos teus braços, enfeitiça-me com os teus encantos, adormece-me na tranquilidade que brota de ti.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ao acaso

Escrevo!
E no acto assumido, desvirgino a alvura do ecrã, emprenhando-o de palavras geradas na fecundidade do pensamento.
Escrevo, em palavras pensadas, silêncios de mim!
Abro-me, desvendando ecos interiores.
Esculpo-me em palavras,
Dou-me!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os Mega

Depois de reler o assunto explanado no post de ontem, resolvi proceder a algumas modificações, pois a ideia que pretendia transmitir ficou-se muito aquém do desejado(há alturas em que isso acontece). Assim, relendo o que escrevera, decidi alterar, acrescentar, suprimir, ideias transformadas em frases, de modo a que a ideia que formei sobre esta última medida do nosso mui iluminado Ministério da Educação ficasse bem explícita para todos os que fazem deste meu cantinho um ponto de paragem e leitura: a formação dos Mega-Agrupamentos.
Já de si a palavra pressupõe algo gigantesco, porque um mega, qualquer que seja o contexto em que se insira ou refira, mete sempre respeito, quanto mais não seja pela associação do significado/significante que o signo linguístico transmite.
Pela perspectiva do ambiente deste primeiro dia, as partes parecem ainda não terem conseguido alcançar o todo coeso, coerente, faltando acertar, limar aspectos simples, mas tão necessários a um bom arranque de mais um ano lectivo que agora se inicia.
Geralmente( a maturidade aliada à experiência de vida já o mostraram) tudo o que nasce de partos anti naturais, impostos, com objectivos meramente economicistas nunca resultou bem.
Com tantos megas, esperemos, desejamos, para o bem de todos e principalmente dos alunos, que os percalços, a existir nesta nova experiência ministerial, sejam apenas micros!
Nem sempre grandeza é sinónimo de bom desempenho!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Recomeçar

Na vida, a sucessão ininterrupta de ciclos que se renovam e refazem num vaivém do tempo, é uma constante.
O carácter cíclico da vida não deverá contudo ser entendido como mera repetição do passado. Se repetição houver ela reside no factor temporal em que os acontecimentos ocorrem, quanto ao resto tudo é diferente. Claro que há momentos em que as diferenças são menores, mais ténues, quase imperceptíveis, mal se dando por elas, criando a ilusão óptica de que nada se alterou.
A renovação anual das cerimónias cíclicas da vida implica, quase sempre, o começo de outras, de novas, de diferentes etapas, muitas delas decisivas nos percursos a traçar para o ciclo que começa.
Amanhã, ou melhor hoje, reinicia-se um ciclo que se repete há já bastantes anos. Aparentemente nada de novo: os mesmos rituais já decorados pela repetição de gestos automáticos.
Aparentemente tudo recomeça com os mesmos rituais de há um ano, dois, todos os que ficaram para trás e que deram início a um novo calendário escolar. Quanto muito pequenas nuances, mas a peça é a mesma, o enredo pouco se alterou e o final terminará sempre com um”The End”.
Aparentemente e só mesmo aparentemente….
Este ano, por uma conjugação de vários factores, intrínsecos e extrínsecos aos actores, e inexistentes em anos anteriores, nunca o carácter cíclico se diluiu tanto, dando lugar à expectativa dos próximos tempos.
No final o “The End” continuará a aparecer, independentemente dos enredos, das tramas a urdir.
Resta esperar, sempre com o espírito desperto e aberto para as mudanças que se aguardam.
Para o bem de todos que seja um de “The End” sereno, tranquilo, feliz e, que no final do percurso, se alcancem "megas", não dos obrigatórios,não dos institucionais,não dos nascidos de partos políticos e baseados em permissas economicistas, mas antes dos conquistados pela força da entrega, do trabalho, do esforço e do interesse de todos os que trabalham e vêem a Escola como um investimento no futuro, com vista ao objectivo primordial de quem se empenha no seu estudo: o sucesso efectivo, real que terá de passar pela entrega, pelo estudo, pela atenção, pelo querer de todos os intervenientes e principalmente dos alunos que são o Futuro deste país!
Neste e só neste contexto ergo a minha voz e digo com toda a convicção " Viva a Mega Escola"!

domingo, 22 de agosto de 2010

Frutificação

Desde a publicação do meu último post que já decorreu quase uma semana.
Uma semana de olhar insistentemente para tantas "Amoras"! Não é que não as ache deliciosas, principalmente se se converterem em doce, mas confesso que o excesso daquele fruto silvestre já me enjoa.
Quase uma semana, cerca de sete dias sucessivos de pausas, silêncios, de vazios de pensamento!
Umas férias da e na inspiração!
Tal como na vida, também na escrita ocorrem momentos de recolhimento, de pausa, de descanso necessários. São momentos excelentes para "podar" as ideias. E com o tempo a imaginação e a inspiração frutificarão!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

As Amoras

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

domingo, 15 de agosto de 2010

Ritual Cíclico ou Mais do Mesmo

Num ritual de carácter cíclico iniciou-se hoje mais uma época de futebol, Liga Zon Sagres 2010 / 2011.
Entre outras oito equipas, estreou-se a do meu Sporting que se deslocou a Paços de Ferreira para aí disputar o 1º jogo do calendário, infelizmente perdido.
Equipa “nova”, treinador novo, os mesmos dirigentes e acima de tudo a massa associativa e os adeptos, gente anónima que vibra com o verde da esperança, que nos distingue, e depositam nela a expectativa de um melhor desempenho e resultados favoráveis para a equipa que elegeram, no coração e na alma, como a sua!
Neste início de temporada, o desejo que o campeonato seja pautado por uma ética e uma conduta desportivas baseadas no respeito e fair play entre todos os intervenientes.
Que vença o melhor e que esse melhor se projecte em tons de verde!

sábado, 14 de agosto de 2010

Continuação...

Numa das minhas inúmeras navegações pela Net aportei num lugar aprazível, um arquipélago de informação, constituído por inúmeras ilhotas do saber.
Numa dessas ilhas deparei-me com uma proposta de desafio que me pareceu bastante aliciante sob várias perspectivas e decidi aceitá-la. Era um desafio relacionado com a escrita e a sua participação proporcionou-me agradáveis momentos de criação.
Apesar de à partida me ter mentalizado de que não iria alcançar o objectivo primordial, a tarefa que era proposta deu-me um imenso gozo interior realizá-la: foi como se, perante as desordenadas peças de um puzzle, me visse obrigada a dares-lhe forma, encaixando cada peça na sua correspondente de modo a produzir uma sequência, um esboço inacabado, pronto a ser retomado por mentes alheias. Mas o mais pitoresco deste puzzle é que a responsabilidade da construção e da escolha das peças a utilizar, de modo a moldarem-se umas nas outras, era exclusivamente minha. Bastaria ter encaixado as peças de um outro modo e o desenho final surgiria com outros contornos!
Gostei do desafio e porque sou uma pessoa persistente, decidi voltar a participar, pelo simples prazer que me proporciona o exercício da escrita aliado à imaginação.
Como diz o dito popular" Não há duas sem três."
Nunca se sabe!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Outros filmes

Cada ser humano, no tempo que lhe é concedido para o crescimento integral como pessoa, desempenha um papel no seu filme de vida, diferente de todos os outros filmes existentes e que não são mais do que curtas ou longas metragens de histórias individuais de vida. Por vezes quer actores quer figurantes acabam por participar em diferentes filmes ao mesmo tempo, alternando de papeis e contribuindo para o sucesso da história com graus de importância diferentes.
Estudar o papel que nos é atribuído, encarnar a personagem que nos foi destinada implica uma constante observação, atenção e muito conhecimento de si próprio. E são todas estas exigências que contribuem para o contínuo crescimento do ser humano. O crescimento interior que o acompanha até ao partir da fita, completamente distinto do físico. Um crescimento onde as constatações visíveis que o testemunham não existem, pelo menos no momento imediato.
O crescimento de que vos falo é aquele que leva o ser humano a percepcionar o mundo que o rodeia com um outro olhar, que o faz perspectivar as múltiplas vivências por que passa de uma outra maneira. É um crescimento que matura o espírito e advém sempre que o Homem for capaz de interpretar, " à la lettre", as legendas do filme da vida.
Às vezes não é fácil: confunde-se o sentido, baralha-se a ideia, erra-se a tradução. Outras vezes nem sequer se conseguem ler as legendas de tão rápido que passam e ficam apenas vagas ideias das imagens observadas. Mas o maior problema é quando, no decorrer desse filme e sem se esperar, o realizador resolve proceder a alterações no enredo, mudar as personagens, modificar os diálogos: a confusão total!
Nesta situação como fazer? O que fazer? Quando fazer?
Não existem respostas definidas e prontas a servir. Cada ser humano deverá descobrir, em si próprio, as respostas adequadas ao seu filme.
Dúvidas? Medos? Indecisões?
Inevitável! Indispensável para quebrar a monotonia monocórdica do enredo.
E uma certeza (pelo menos uma): independentemente do desempenho dos actores, o filme prossegue, a bobine continua o seu movimento rotativo enquanto a fita vai projectando, no ecrã, cada uma das imagens em si aprisionadas.
E haverá alguém que não aspire, como corolário da sua carreira na sétima arte da vida, à estatueta dourada?
And the winner is...
 Cada um de nós!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Os larápios roedores II

Da janela, observava a cena atentamente, apercebendo-me que a presença destes dois “larápios” roedores fizera com que o meu pensamento destrancasse a arca da memória e despertasse lembranças adormecidas que se soltaram em imagens amarelecidas pelos anos.
Parada na quietude da madrugada e debruçada no parapeito da janela do tempo, a viagem ao passado levou-me à minha secundária (na época liceu) e relembrei a cena da chegada ao moinho e as primeiras impressões, tão bem descritas por Alphonse Daudet, no primeiro capítulo do livro “Lettres de Mon Moulin”, leitura obrigatória na disciplina de Francês.
O escritor, referindo-se ao que encontrara no interior do seu moinho descreve o primeiro contacto entre ele e os seus amigos: « Ce sont les lapins qui ont été étonnés !... Depuis si longtemps qu'ils voyaient la porte du moulin fermée, les murs et la plate-forme envahis par les herbes, ils avaient fini par croire que la race des meuniers était éteinte, et, trouvant la place bonne, ils en avaient fait quelque chose comme un quartier général, un centre d'opérations stratégiques : le moulin de Jemmapes des lapins... La nuit de mon arrivée, il y en avait bien, sans mentir, une vingtaine assis en rond sur la plate-forme, en train de se chauffer les pattes à un rayon de lune... Le temps d'entrouvrir une lucarne, frrt !voilà le bivouac en déroute, et tous ces petits derrières blancs qui détalent, la queue en l'air, dans le fourré.
J'espère bien qu'ils reviendront. »
Embalada nas asas da recordação apercebi-me, com admiração, de como, durante tantos anos, retivera, num canto escondido da memória, a vaga lembrança deste episódio, lido há muito tempo atrás, mas que por um qualquer motivo não esquecera.
E tal como Alphonse Daudet o desejou há dois séculos atrás, também eu, nessa madrugada, desejei que eles aparecessem de novo!
Assustados pelo roncar de um carro, embrenharam-se no meio da vegetação.
Desapareceram!
Refrescada pela junção da brisa da madrugada com a da lembrança, deslizei por entre os lençóis.
Adormeci!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Os larápios roedores I

Numa destas noites de intenso calor e temperaturas elevadíssimas, o sono sobressaltado, pelo desconforto sufocante do ambiente interior, levou-me a procurar, na janela completamente aberta, um pouco de "frescura" que amenizasse o ar abafado que se instalara.
Ao mesmo tempo que saboreava a brisa suave que fluía, olhava distraidamente para o escuro da paisagem, de mente vazia, apenas deixando que o corpo fosse invadido pela sensação de frescura .
De repente, o meu olhar foi desperto por um movimento rápido e ligeiro, quase imperceptível. Focalizando o local onde detectara a acção, descobri por entre as giestas, quase secas, o recorte de uma figura escura, pequena, mas muito ligeira nos avanços e recuos com que explorava o território. De orelhas sempre espetadas, vigiava, atento aos mínimos sinais que pudessem indiciar a existência de perigo, as movimentações em seu redor. Por entre a vegetação seca e amarelada, corria e parava, à procura de alimento e sempre de orelhitas espetadas, olhando para todos os lados. Sim, era um coelhito bravo, traquina que, numa cumplicidade com a madrugada, lutava pela sua sobrevivência, com o instinto sempre alerta.
Imóvel, sustive a respiração, receando que o mais pequeno ruído provocasse a fuga do solitário roedor (pensava eu).
 Eis que, de súbito, ainda mais célere que o “batedor”, surgiu uma segunda figura, mais pequena, mais nervosa nos movimentos, mas também de orelhas espetadas num vaivém instintivo de quem busca mantimentos. Afinal eram dois coelhos que, na calada da madrugada e encobertos pelo silêncio da noite, procuravam ervas frescas para se refrescarem do calor insuportável que assolara o dia.
(continua)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Relatividade Cultural I

A Mesquita de Lisboa é uma construção imponente mesmo no coração de uma das zonas nobres de Lisboa, situada em frente à escola básica 2º e 3º Ciclos da Marquesa da Alorna, (que saudade!!!).
A parte exterior do edifício sobressai das construções circundantes pela estrutura arquitectónica que a compõe e pelos “arabescos”, inscrições bem visíveis no frontal da entrada, em árabe.
Transposto o limite que separa o sagrado do profano, o puro do impuro, o visitante depara-se com um ambiente calmo, silencioso, pleno de tranquilidade, características necessárias para quem encontra naquele espaço as condições ideais destinadas ao exercício espiritual, reencontro interior do ser com o Criador.
O ser-se “estrangeiro” em território “inimigo” não implicou a não-aceitação, pelo contrário, sugerida a hipótese de uma visita às várias dependências que compunham o edifício, esta foi, imediatamente, permitida com toda a simpatia e disponibilidade por parte de quem se encarregava, entre outras coisas, das relações públicas do local do culto.
Com uma postura simples, mas ao mesmo tempo assertiva, informaram-nos de que poderíamos entrar na sala destinada à práctica do culto  sob duas condições: 1ª, teríamos de nos descalçar, 2ª, porque pertencíamos ao sexo feminino, seríamos obrigadas a ocultar o cabelo.
Aceitámos as regras estipuladas e preparámo-nos. A visita ia começar.
(continua)

Relatividade Cultural II

De lenços na cabeça (passavam a vida a escorregar e era mais o tempo em que se via o cabelo do que o que estava tapado) e descalças pudemos, enfim,  transpor o acesso que nos conduziu ao local sagrado.
Lá dentro imperava o silêncio e a paz, a hora e o dia não eram de muita afluência. Deliciámo-nos com a decoração do interior, com a disposição dos símbolos religiosos no espaço. Uma sala enorme, alta, decorada com uma extensa tapeçaria que cobria todo o chão, no tecto,  um grande lustre e rodeando a sala rectangular, umas inscrições alusivas a excertos do Alcorão com a respectiva tradução em português.
Numa sala contígua, o local de purificação do corpo feito através de abluções que seguem um ritual tão antigo como o início do Islamismo. Aí dois jovens tratavam dos procedimentos necessários para poderem ser considerados dignos de se dirigirem em oração ao seu deus, Alá.
Como todas as mesquitas, o interior estava enfeitado com formas geométricas sendo total a ausência de formas humanas, nem de cenas representativas de episódios do livro sagrado, apenas e só arabescos e desenhos geométricos.
Já à saída fomos interpeladas por um muçulmano, idoso, que travou diálogo connosco, movido pela curiosidade do que nos levara ali.
Após uns bons minutos de amena conversa, numa troca de impressões sobre o Islamismo versus Cristianismo, o ancião, guardador do templo, ao saber da profissão que eu exercia, não conseguiu deixar de rematar o diálogo proferindo com ar sério:” para se ensinar o islamismo é preciso sabê-lo, caso contrário arrisca-se a dar uma informação errada".
Quando lhe respondi  que, em relação ao assunto, apenas se ensinavam os princípios básicos dessa religião, o semblante serenou e despediu-se tranquilo.
A visita a este espaço, por breves momentos, originou uma intersecção cultural e inseriu-se no que em Antropologia se chama a “relatividade cultural”.
Que ambas as partes a saibam aceitar e respeitar!