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terça-feira, 20 de março de 2012

Questão de semântica

“Não estamos a extinguir, estamos a agregar, estamos a juntar freguesias”, afirmou, ontem, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, quando interpelado pelos jornalistas.
Ouvindo-o, lembrei-me de outros tempos, de outros governantes, de outras tiradas assertivas, proclamadas em tom de verdade.
Mudam-se os tempos, mudam-se as pessoas, mudam-se os contextos, mas os nossos políticos permanecem fiéis ao modelo oratório baseado numa esgrima de palavras, num jogo de sentidos.
Se há uma arte em que estes já demonstraram bem a sua mestria, ela é, sem dúvida, a da semântica!


segunda-feira, 19 de março de 2012

Escrevi teu nome

Quantas vezes, aqui, eu te escrevi? 
Quantas vezes eu te recriei? 
Quantas vezes chamei pelo teu nome? 
Quantas vezes nos reencontrámos em palavras por mim criadas, docemente trabalhadas, tecidas de afectos, debruadas de saudade, de ti, palavras ternas, palavras-espelho, de imagens que fui guardando na intimidade da memória, de ti!
Tantas e tantas vezes que eu, aqui, já te escrevi, gritei teu nome, soltei-o nas asas da lembrança, dei-lhe forma e sentimento, compu-lo!
Quantas vezes o fiz? Não sei, foram tantas... 
Quantas vezes eu escrevi teu nome sem o escrever, quantas vezes te partilhei, em pedacinhos de ternura só meus, quantas vezes te relembrei na bondade que transparecia do teu ser, na benevolência com que julgavas os outros, na calmaria das tuas palavras, por vezes carregadas de silêncios, em cumplicidade com o brilho intenso de um olhar que tudo dizia?
Foram tantas! E em cada uma delas, resguardo-te na memória das palavra que me aquecem o coração em momentos de tristeza, que me ajudam a sorrir em momentos de desânimo, que me dão força e me acompanham  em momentos de incompreensão.
Escrevi teu nome.



terça-feira, 13 de março de 2012

Perfeição

Há pouco, num instante fugaz, o rasto luminoso de uma estrela cadente, no seu percurso para o abismo, rompeu o azul imenso do céu, límpido e estrelado: uma bola dourada, em pleno movimento, cruzou o céu da minha rua, rasgou o azul vastíssimo do firmamento e desapareceu.
Como é perfeita a obra da Criação, minuciosamente pensada, cuidadosamente concebida, naturalmente existida! 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Avó

A propósito da data que hoje se comemora, recordo alguém que foi, sem dúvida, uma grande mulher. Grande, no seu metro e meio de altura e trinta e quatro de pé. Como tantas vezes a ouvi dizer “ a mulher e a sardinha querem-se da pequenina” rematando com “chego a onde chegam as outras”. Sem dúvida que chegava, com a ajuda do seu banquinho de três degraus que, lesta, subia e descia, mesmo já com o avanço da idade.
Senhora do seu nariz, dona de uma vontade férrea, de uma força altaneira, pequenina e decidida, não deixava os seus créditos por mãos alheias.
A minha avó (ou será antes a lembrança que dela evoco?) parecia-me – naquela altura ainda não me apercebera das marcas deixadas pela passagem do tempo – não ter idade, ou melhor, parecia-me não envelhecer.
Ridiculamente, teimamos em aprisionar, no tempo, os entes que amamos como se, com isso, conseguíssemos impedir a passagem dos anos, a inevitabilidade da perda.
As suas memórias são imensas, mas há duas ou três que me assaltam de imediato e me fazem sorrir.
Monárquica por convicção, recusava-se a assistir à comemoração da Implantação da República. De férias, na aldeia, para onde partia, mal terminavam as nossas aulas, só regressava à capital no dia seis de Outubro.
Durante anos e anos, tantos como os que a idade lhe permitiu, repetia o mesmo ritual, num protesto velado e simbólico, defendendo, assim, as suas convicções.
Guardo, também, na memória, o desenho da sua caligrafia: arredondada, minuciosa, esculturalmente traçada, desenhada, qual obra de arte. A correspondência era, sempre, um momento solene, selado com o monograma no lacre derretido.
Tantas e doces recordações da minha avó e que são também minhas. Um acervo de vida que perdurará porque amar é lembrar, é recordar...
Um perfume que paira no ar,
Um gesto,
Um semblante,
Um olhar que jamais se esquecerá.
Amar, é não deixar morrer a lembrança que fica e que o tempo não consegue apagar.



domingo, 4 de março de 2012

Na tranquilidade de mim

Abro a página em branco e aguardo que as palavras brotem naturalmente, ganhem sentidos, me desnudem o pensamento. 
Abro esta página, virginalmente alva e pura e espero, quase adormecida, meio entorpecida, aquecida pelo calor reconfortante, pelo quentinho agradável que se desprende do crepitar da madeira seca que arde na lareira, envolta em labaredas alaranjadas. Fixo o olhar nas formas dançantes, tremeluzentes que se desprendem dos fogachos incandescentes, dou-me em palavras prenhes de sentidos.
Na roncice de uma tarde, languidamente preguiçosa, escrevo e, em cada palavra pensada, em cada palavra liberta, solto reflexos de mim.

sábado, 3 de março de 2012

No final da noite


Mergulhando no aconchego da noite, azul da cor do céu... 
Bons sonhos, cheios de sorrisos celestiais...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Artimanhas ou a sábia arte de roubar

Eu não consigo perceber a lógica que preside às decisões tomadas por certos grupos empresariais deste país!
Por pagar a pronto as minhas despesas, numa determinada superfície comercial de renome na praça pública, contribuindo assim para que esta receba, logo de imediato, no acto da transacção, o dinheiro por si investido, “encachando” capital e por não fazer uso de um cartão - de crédito, ao que parece - que me permite optar por um pagamento faseado ou até mesmo adiado, acabo penalizada em detrimento dos que consomem e só pagam no final do mês (reconheço que nalgumas situações dará muito jeito).
É preciso ter lata!

Adenda: Sob protesto, paguei a quantia de cinco euros e vinte cêntimos por “inactividade do cartão”, mas, de imediato, dei ordem de cancelamento, acompanhada da minha indignação…


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A prosia

O mundo da blogosfera é tão vasto e tão diversificado que, dificilmente, se esgotará ou reduzirá quanto à forma e ao conteúdo possíveis.
Há blogues de “todas as cores e feitios”: temáticos, generalistas, intimistas, fruto dos gostos e das competências pessoais dos seus autores.
Nas minhas viagens pela blogosfera, descobri a emergência de uma nova forma de escrita, situada algures entre a prosa e a poesia: a "prosia".
A "prosia" resulta, assim, da mistura destas duas formas. 
O texto "prosético" combina o conteúdo da prosa dando-lhe uma forma de verso, muitas vezes enfeitado de rima – como se a poesia se obrigasse a rimar!
Os seguidores desta nova forma literária são os "prosetas": todos aqueles que buscam uma identidade literária e ainda não definiram bem o seu estilo de escrita.
Definitivamente, é na prosa - a poética - que me encontro.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Tanto por tão pouco

Existem situações tão caricatas que nem lembram ao diabo!
Ultimamente, têm-me acontecido algumas…
Arquivando as facturas, apercebi-me que havia uma da TMN, cujo prazo de pagamento já tinha passado e que, estranhamente, me escapara.
Um pouco baralhada, uma vez que sabia ter as contas em dia, peguei na folha e qual não é o meu espanto quando verifico que a mesma se referia a uma importância de 5 cêntimos. Prontamente, dirigi-me a uma caixa multibanco para efectuar o pagamento - pensava eu - . Como se tratava de uma quantia tão irrisória, o sistema não permitiu a operação. Assim, tive de me dirigir a um dos balcões existentes, onde aguardei quase uma hora até ser atendida.
Uma vez que sou cliente da TMN e o meu tarifário implica o envio de uma factura, todos os meses, para casa, não seria mais lógico e económico contabilizar os 5 cêntimos no valor da factura seguinte, como procedem outras empresas? Resolvia-se o problema, os custos para a TMN eram menores e o cliente não se via obrigado a tantas andanças por tão pouco.
É tudo uma questão de bom senso e preservação da imagem junto do público.  

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Briosa

Já há muito tempo que não assistia um jogo de futebol ao vivo.
Hoje, fui torcer pela minha outra equipa, juntar a minha voz à da Academia, num uníssono Briooooooooosaaaaaaaaaaaaa. Parece que resultou, pois os vermelhos não foram para além de um empate a 0.
Contrariamente ao que se pensaria - a Académica vinha de uma derrota franca - a equipa de Pedro Emanuel conseguiu segurar o resultado, atrapalhar o Benfica na caminhada rumo ao título e ajudar o Porto a recuperar.
Perfeito!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Em forma de sussurro

Chegar a sexta-feira e perspectivar dois dias de lazer, sabe tão bem! Principalmente, se acompanhados por este sol magnífico e temperados com este calor temporão.
Até parece que o tempo meteorológico se solidarizou com a nossa situação de crise!
O lazer e a crise - escrevia eu – e, de repente, ainda mal acabara a frase, a ideia surgia, em forma de palavra escrita, muito sussurrantemente “a continuar-se assim, ainda voltamos a trabalhar todos ao sábado.”
Na esperança de não ter sido ouvida, saúdo o fim-de-semana que hoje começa, com cheirinho estival.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O problema

O café pastelaria da minha urbanização, recentemente, empregou uma jovem para o serviço de balcão, em contacto directo com o cliente.
Quando, hoje, lá fui comprar o pão, foi ela que me atendeu com toda a prontidão.
O problema surgiu quando lhe entreguei uma nota de dez euros para pagar a despesa de um euro e doze cêntimos.
Confusamente, mexia e remexia nas moedas da caixa registadora sem atinar com o troco a devolver: moeda para aqui, moeda para ali, num tilintar nervoso e constrangedor que a baralhava cada vez mais, enquanto o rubor envergonhado lhe tomava a face.
A certa altura, como não conseguia efectuar a simples conta de subtrair, valeu-lhe – pensava ela – a calculadora do telemóvel. Mas, também aqui, o resultado esperava por aparecer - as máquinas não funcionam sozinhas, há que saber introduzir-lhes os dados.
No meio de tanta atrapalhação, salvou-a o dono do estabelecimento que, com toda a paciência e os conhecimentos adquiridos numa antiga quarta classe, lhe explicou, moeda a moeda, o valor que ia de 1 euro e doze cêntimos a 10 euros.
Enquanto assistia a tudo isto e esperava pelo troco, pensava:” Como é possível um jovem que teve, pelo menos, 9 anos de escolaridade obrigatória, não conseguir efectuar uma simples conta de subtrair? Como foi possível ter-se chegado a este estado?”
Urge reflectir-se! 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Aquela casa

A casa espraiava-se para os lados. 
Era uma casa soberba e colonial, enorme e belíssima. Debruçada sobre uma magnífica escadaria, que partia do enorme jardim que a circundava, destacava-se pela sua grandiosidade.
Era uma casa principesca, de traçado nobre, altiva. Repleta de espaços largos, a arquitectura privilegiara-a.
O seu interior, dividido em inúmeras divisões, amplas, rasgadas por janelas colossais, por onde entrava a luz natural, mal surgiam os primeiros raios de sol, tornavam-na clara e alegre. Mas era o jardim que fazia as delícias da pequenada.
No dia em que se mudaram, ainda mal se tinham acomodado e já a criançada corria e percorria aquele espaço, explorando cada recanto, desbravando as incógnitas do terreno, libertando a imaginação aguçada pela novidade, vendo-se a viver tantas aventuras por entre o capim, as mangueiras e as papaeiras seculares, sarapintadas de apetitosos e suculentos frutos alaranjados que, tantas e tantas vezes, os saciara.
Ladeando o edifício, avistava-se um caramanchão meio escondido pelo lilás arroxeado de uma magnífica buganvília que trepava, livremente, atapetando-o. O aroma que se desprendia das suas pétalas viçosas impregnava o ar, com um perfume adocicado e estonteante.
O tempo corria célere, naquela casa povoada pela fantasia dos mais novos. Sem se aperceberem da sua passagem, chegara a hora da despedida.
A criançada partiu e com ela os sons alegres e prazenteiros dos risos, das gargalhadas, das brincadeiras próprias de uma idade de pureza. A casa ficou silenciosa e vazia.
Os anos passaram. Da casa, talvez restem apenas as ruínas, testemunho do esplendor de outrora.
Na memória intacta das crianças, agora adultos, a casa permanece radiante e acolhedora, como sempre fora.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Nas asas do vento

Hoje, decidi saborear o dia lindo e solarengo. Empoleirei-me nas asas do vento e deixei-me flutuar ao sabor da brisa suave que se libertava por entre o verde da paisagem, enfeitada de risos e cores.
Hoje, enquanto pedalava por entre os espaços verdes da minha cidade, lembrei-me da cena em que Meg Rayn, personagem principal do filme “A Cidade dos Anjos”, desliza, livremente, numa estrada ladeada de frondosas árvores, sob as carícias de um sol quente, em comunhão total com a grandiosidade da Natureza.
De encontro ao vento que me afagava, saboreando a tranquilidade e a paz de um dia soalheiro e risonho, senti o prazer da liberdade, o gostinho da plenitude, a sensação de perfeição, o esboço do divino.
Hoje, galopando no corcel do vento, reencontrei o sabor genuíno da liberdade!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Era uma vez

Quieta, absorta nos pensamentos que a tomavam, Maria recuava ao passado e relembrava a monotonia daqueles dias sempre iguais em que a sua vida se tornara.
 De memória em memória, perdia-se no silêncio lato do tempo e revia-o, outra e outra vez como se fora a primeira: devagar, aproximava-se, num movimento cadenciado, equilibrando-se no medo da verdade do momento, na surpresa da aceitação. 
Finalmente, conheciam-se sem barreiras, sem obstáculos, surpreendentemente, viam-se, ouviam-se, sentiam-se, como se saídos de um conto irreal, meros personagens que a vida manietara e, que naquele dia, sem o saberem, reescreviam o mapa traçado na palma das suas mãos, mudando, para sempre, o percurso das suas existências.
Tudo começara com uma necessidade de quebrar o isolamento e o desamor a que o seu destino os conduzira.
Hoje, ela, mulher madura e maturada, reflectia na década de uma união, irremediavelmente, falhada, nos anos passados, lado a lado, para, no fim, apenas o silêncio os unir, num monólogo indecifrável, incompreendido, intraduzível que os levara, por fim, à separação das suas vidas, há muito anunciada.
Ele, cansado da vida sempre igual, tépida de amor, rotineira, enraizada na amizade fraternal que o prendia àquela, que muitos anos atrás pensara ser a paixão que o conduziria ao amor, ousara quebrar as amarras que o prendiam e impediam de voar mais alto, descobrir-se, reinventar-se, renovar-se.
Inicialmente, nada previra o rumo que a suas histórias de vida tomariam.
Ela e ele, meros desconhecidos, separados na distância, com percursos de vida tão distintos, não sabiam que a vida põe e dispõe, livremente, sem se importar ou perguntar o que se quer, ou o que se deseja aos seus protagonistas. 
Os dois buscavam o bem-querer, cada um na procura de alguém a quem amar, amar perdidamente, amar desmesuradamente, amar plenamente, num percurso ávido de dádiva, para então receberem.
Ambos, tragados pela monotonia da existência, quase descrendo da intensidade que a vida é sempre, prestes a desistirem do acreditar, desconheciam que, naquele dia, os seus destinos cruzar-se-iam para sempre e nada seria o mesmo.

(talvez continue)