Ao longe, perdida numa das encostas sobranceira ao rio, avista-se a mancha compacta de um casario envelhecido pelo tempo: são retalhos de história, memórias esquecidas de gente sofrida, vivida, parida de corpo e alma.
Em baixo, indiferente, às histórias das gentes, o rio desliza, silenciosamente, no seu leito sinuoso, reflectindo o verde exuberante das suas margens.
Espreitando-o, o casario, testemunha secular de tanta beleza, pelos poetas cantada, pelos amantes sentida, deleita-se com a graciosidade estendida a seus pés.
O casario e o rio, personagens indiferentes à passagem do tempo, complementam-se nas memórias, quase esquecidas, das gentes envelhecidas no corpo e na alma.
Desafioos é já por si um desafio lançado em forma de repto: "Andas muito filosófica, tens de criar um blogue!". Porque gosto de desafios, aceitei o desafio e criei este blogue.
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sábado, 17 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Acordes do Tempo
Quando já tudo parecia indiciar a chegada, um pouco tímida, da Primavera eis que, de súbito, o tempo volta a cobrir-se com o seu manto negro, debruado de raios prateados.
Numa sinfonia "acórdica", o vento e a chuva soltam-se em compassos arrítmicos, de sons secos e estrondosos, dirigidos pela batuta da trovoada.
A paisagem transfigura-se:entristece, enegrece, escurece.
Os dias chuvosos e tristonhos regressam.
Fecha-se a Natureza, reaviva-se a reflexão!
Numa sinfonia "acórdica", o vento e a chuva soltam-se em compassos arrítmicos, de sons secos e estrondosos, dirigidos pela batuta da trovoada.
A paisagem transfigura-se:entristece, enegrece, escurece.
Os dias chuvosos e tristonhos regressam.
Fecha-se a Natureza, reaviva-se a reflexão!
domingo, 11 de abril de 2010
Rascunho
(Este post é um mero rascunho, esboço inicial de um texto que aguarda o seu final num tempo ainda não sabido)
Lá fora, a noite está serena. Os sons ténues que se perscrutam são sussurros da brisa que embalam a paragem do tempo.
As fragrâncias primaveris espalham-se pelo ar morno da madrugada, cúmplice de sentires, na certeza de partilha de quereres.
A serenidade invade e percorre todo o meu ser! Sou a consciência das decisões tomadas, a responsabilidade dos actos assumidos! Sinto a urgência da liberdade que me apela ao desagrilhoar da corrente que maniatou demasiado tempo da vida.
Irradio a luz que me forma, sou reflexo espelhado nas águas calmas e tranquilas de um lago de águas cristalinas.
Na madrugada silenciosa, sou tudo e nada, na vontade da mudança, na certeza da razão, na firmeza da acção.
Lá fora, a serenidade da noite embalou-me nos seus braços.
Por fim, entreguei-me à tranquilidade do momento: adormeci.
Lá fora, a noite está serena. Os sons ténues que se perscrutam são sussurros da brisa que embalam a paragem do tempo.
As fragrâncias primaveris espalham-se pelo ar morno da madrugada, cúmplice de sentires, na certeza de partilha de quereres.
A serenidade invade e percorre todo o meu ser! Sou a consciência das decisões tomadas, a responsabilidade dos actos assumidos! Sinto a urgência da liberdade que me apela ao desagrilhoar da corrente que maniatou demasiado tempo da vida.
Irradio a luz que me forma, sou reflexo espelhado nas águas calmas e tranquilas de um lago de águas cristalinas.
Na madrugada silenciosa, sou tudo e nada, na vontade da mudança, na certeza da razão, na firmeza da acção.
Lá fora, a serenidade da noite embalou-me nos seus braços.
Por fim, entreguei-me à tranquilidade do momento: adormeci.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Lá longe na imensidão...
Olho as estrelas, lá longe, perdidas no imenso azul do céu, são pontos cintilantes, luzes tremeluzentes, de brilho intenso.
Admiro as estrelas, lá longe, na noite escura. Diamantes bem polidos por mão misteriosa e portentosa.
Observo as estrelas, bem distantes, na cúpula abaulada do universo, pontos minúsculos em energias rodopiantes.
Ergo o olhar para a imensidão do espaço, e penso - lá longe, de onde as estrelas me olham, eu sou, apenas e só, um ponto minúsculo, matéria moldada por mão portentosa e misteriosa, energia concentrada, sem luz cintilante, na antípoda da cúpula abaulada do universo.
Lá longe, de onde as estrelas me olham, eu sou, apenas e só, um ponto minúsculo na imensidão do planeta, sou ausência e presença, dúvida e certeza, ignorância e saber no barro moldado em forma de vida -.
Lá longe, aqui ou lá, as estrelas e eu somos, apenas e só, pequenos pontos minúsculos, na vastidão imensa do caos organizado, por mão portentosa e sublime!
Admiro as estrelas, lá longe, na noite escura. Diamantes bem polidos por mão misteriosa e portentosa.
Observo as estrelas, bem distantes, na cúpula abaulada do universo, pontos minúsculos em energias rodopiantes.
Ergo o olhar para a imensidão do espaço, e penso - lá longe, de onde as estrelas me olham, eu sou, apenas e só, um ponto minúsculo, matéria moldada por mão portentosa e misteriosa, energia concentrada, sem luz cintilante, na antípoda da cúpula abaulada do universo.
Lá longe, de onde as estrelas me olham, eu sou, apenas e só, um ponto minúsculo na imensidão do planeta, sou ausência e presença, dúvida e certeza, ignorância e saber no barro moldado em forma de vida -.
Lá longe, aqui ou lá, as estrelas e eu somos, apenas e só, pequenos pontos minúsculos, na vastidão imensa do caos organizado, por mão portentosa e sublime!
quarta-feira, 7 de abril de 2010
(Des) inspiração
Sentei-me, na dúvida do que iria escrever. As ideias, sugeridas pelo pensamento, eram, de imediato, recusadas. Esgotadas todas as hipóteses, apercebi-me que, de facto, por mais que me esforçasse, hoje, nesta noite, a musa inspiradora abandonara-me. Nem o som das salsas eróticas, que fluíam do computador, evocando a sensualidade dos sentidos, me despertava a inspiração para o momento sublime da criação: a escrita como um acto pessoal, único e individual, identificador, por excelência, da personalidade do ser criador.
Em contextos, como este, em que o tempo corre e a imaginação esvai-se, em enormes nadas, entrego-me à evidência constatada. Desligo o portátil.
Embrenho-me na magia da noite. Busco, nos sons quentes e sensuais do ritmo latino – americano, o elixir afrodisíaco da alma.
Reaverei a inspiração perdida!
Em contextos, como este, em que o tempo corre e a imaginação esvai-se, em enormes nadas, entrego-me à evidência constatada. Desligo o portátil.
Embrenho-me na magia da noite. Busco, nos sons quentes e sensuais do ritmo latino – americano, o elixir afrodisíaco da alma.
Reaverei a inspiração perdida!
terça-feira, 6 de abril de 2010
Desnudar de Alma
Pacifico-me!
No desejo do que quero, nas certezas das escolhas,
Na noção das dificuldades do percurso!
Pacifico-me!
Na tranquilidade da consciência alcançada,
Na verdade, por fim, desnudada.
Pacifico-me!
Na clareza das acções desvendadas,
No reencontro das ideias desordenadas.
Resgato-me!
Dos meus temores interiores,
Dos monstros imaginados,
Do eu amotinado
E por mim sublevado!
Renasço!
Das memórias arrumadas,
Das emoções suavizadas,
Das cicatrizes fechadas!
Reformulo-me,
Refaço-me,
Reinvento-me,
Na paz alcançada!
No desejo do que quero, nas certezas das escolhas,
Na noção das dificuldades do percurso!
Pacifico-me!
Na tranquilidade da consciência alcançada,
Na verdade, por fim, desnudada.
Pacifico-me!
Na clareza das acções desvendadas,
No reencontro das ideias desordenadas.
Resgato-me!
Dos meus temores interiores,
Dos monstros imaginados,
Do eu amotinado
E por mim sublevado!
Renasço!
Das memórias arrumadas,
Das emoções suavizadas,
Das cicatrizes fechadas!
Reformulo-me,
Refaço-me,
Reinvento-me,
Na paz alcançada!
sábado, 3 de abril de 2010
Trajectos de Vida
“Sou senhor do meu destino, comandante da minha alma”
Esta frase, aparentemente, tão simples de sentido, encerra em si uma sabedoria infinita, uma verdade incontestável, uma percepção claríssima do papel do ser humano perante a Vida.
Na vivência deste período pascal, a reflexão apoderou-se do espírito, na essência do ser, e os pensamentos brotaram de mim, tal como um rio que, deslizando no seu leito, abre-se em torrentes de água, indiferente aos obstáculos do percurso.
Cada Homem é senhor do seu destino. Os trajectos de vida a percorrer, as opções a escolher, as decisões a tomar ou adiar, são exclusivamente da responsabilidade de cada qual.
É nesse sentido que cada pessoa torna-se responsável pelos percursos de vida que calcorreia.
O destino reside na força de vontade, na certeza do que se quer, na coragem de o obter, nas opções escolhidas perante a diversificação. Essencialmente, o destino é lutar pelo que se acredita, pelo que se almeja na certeza do alcance da paz interior, conseguida pela tranquilidade da consciência conquistada.
Enquanto a responsabilidade do destino reside nas opções de cada um, por isso o ser-se senhor, em relação à alma apenas se pode ser um simples comandante, pois ela não nos pertence.
Assim como o comandante de um navio que tem a enorme responsabilidade de o dirigir de modo a evitar as imprevisibilidades do oceano, com o objectivo de um bom aportar, assim o ser humano tem a obrigação de, sendo senhor do seu destino, velar para que as decisões tomadas contribuam para o dirigir da alma, no oceano da vida, em tempestades e calmarias, mas sempre com o objectivo de atingir um porto de abrigo seguro.
Ser-se comandante, é saber devolver, incólume e seguro, o que lhe foi confiado, sem lhe pertencer.
Esta frase, aparentemente, tão simples de sentido, encerra em si uma sabedoria infinita, uma verdade incontestável, uma percepção claríssima do papel do ser humano perante a Vida.
Na vivência deste período pascal, a reflexão apoderou-se do espírito, na essência do ser, e os pensamentos brotaram de mim, tal como um rio que, deslizando no seu leito, abre-se em torrentes de água, indiferente aos obstáculos do percurso.
Cada Homem é senhor do seu destino. Os trajectos de vida a percorrer, as opções a escolher, as decisões a tomar ou adiar, são exclusivamente da responsabilidade de cada qual.
É nesse sentido que cada pessoa torna-se responsável pelos percursos de vida que calcorreia.
O destino reside na força de vontade, na certeza do que se quer, na coragem de o obter, nas opções escolhidas perante a diversificação. Essencialmente, o destino é lutar pelo que se acredita, pelo que se almeja na certeza do alcance da paz interior, conseguida pela tranquilidade da consciência conquistada.
Enquanto a responsabilidade do destino reside nas opções de cada um, por isso o ser-se senhor, em relação à alma apenas se pode ser um simples comandante, pois ela não nos pertence.
Assim como o comandante de um navio que tem a enorme responsabilidade de o dirigir de modo a evitar as imprevisibilidades do oceano, com o objectivo de um bom aportar, assim o ser humano tem a obrigação de, sendo senhor do seu destino, velar para que as decisões tomadas contribuam para o dirigir da alma, no oceano da vida, em tempestades e calmarias, mas sempre com o objectivo de atingir um porto de abrigo seguro.
Ser-se comandante, é saber devolver, incólume e seguro, o que lhe foi confiado, sem lhe pertencer.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Invictus
“ Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma”
Sem nada que o indiciasse, decidi:”vou ao cinema”.
Muitas vezes, as decisões pensadas, no momento, são as mais gratificantes!
Em diálogo interior, já decidira que não perderia a exibição de “Invictus”.
O tema tratado no filme, porque verídico, aliciava a minha vontade e despertou a decisão tomada. Sabia que as críticas eram positivas, mas quis decidir por mim própria.
Apetrechada com as habituais pipocas, sentei-me. As luzes já se tinham apagado e as primeiras imagens projectavam-se no ecrã (consequência imediata de decisões tomadas à última hora). Antes de me desligar do mundo exterior, ainda me apercebi que a sala estava quase vazia. Cerca de meia dúzia de pessoas espalhavam-se pelos imensos lugares vagos.
Entreguei-me ao enredo, vivi as emoções que surgiam, naturalmente, da trama, como se fora uma das suas personagens.
Ali, no escuro da sala, esqueci-me de onde estava, o corpo permaneceu, mas o espírito, o pensamento evadiram-se do espaço físico.
De repente já não era eu, via-me, no ecrã, vivendo os vários momentos da acção, como testemunha silenciosa dos acontecimentos históricos que alteraram, para sempre, o rumo de um país que acabara de “nascer”.
Só um grande homem, senhor de uma grande inteligência, associada a uma bondade e sensibilidade extremas, conseguiria ter arquitectado, executado e convencido os seus colaboradores, mais próximos, da importância do seu plano para a união de um povo, que se encontrava completamente desunido, por motivos raciais.
Mandela é um grande senhor, mas acima de tudo um grande ser humano pois, com a sua história de vida, mostrou ao mundo que os sonhos devem ser perseguidos até ao fim, sem haver lugar para desistências, que o amor é o sentimento mais forte de todos, tudo possibilita!
Mandela, preso 27 anos, por motivos políticos, numa cadeia onde as condições de vida eram inóspitas, nunca desistiu de si, do seu sonho, do seu povo. Nos momentos de maior fraqueza escrevia, reflectia, lia.
A frase proferida durante o longo tempo que esteve preso “Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma” define bem o Homem em que se tornou, o estadista que foi, o ser humano simples, humilde, mas de uma grande força de vontade e convicção nos seus ideais que, apenas, se tornou no primeiro presidente negro da África do Sul!
“Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma”, frase chave que encerra em si toda a personalidade de um ser humano e a ideia principal do filme!
As luzes acenderam-se, continuei sentada, saboreando a música final, enquanto o meu pensamento, o meu espírito regressavam ao espaço físico que deixaram no início.
Saio e, na memória, retenho a frase emblemática, que congrega em si toda a ideologia e filosofia do filme:“Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma”!
Que lição de vida,que coragem, que clareza de ideias!
O pacote das pipocas continuava quase cheio!
Sem nada que o indiciasse, decidi:”vou ao cinema”.
Muitas vezes, as decisões pensadas, no momento, são as mais gratificantes!
Em diálogo interior, já decidira que não perderia a exibição de “Invictus”.
O tema tratado no filme, porque verídico, aliciava a minha vontade e despertou a decisão tomada. Sabia que as críticas eram positivas, mas quis decidir por mim própria.
Apetrechada com as habituais pipocas, sentei-me. As luzes já se tinham apagado e as primeiras imagens projectavam-se no ecrã (consequência imediata de decisões tomadas à última hora). Antes de me desligar do mundo exterior, ainda me apercebi que a sala estava quase vazia. Cerca de meia dúzia de pessoas espalhavam-se pelos imensos lugares vagos.
Entreguei-me ao enredo, vivi as emoções que surgiam, naturalmente, da trama, como se fora uma das suas personagens.
Ali, no escuro da sala, esqueci-me de onde estava, o corpo permaneceu, mas o espírito, o pensamento evadiram-se do espaço físico.
De repente já não era eu, via-me, no ecrã, vivendo os vários momentos da acção, como testemunha silenciosa dos acontecimentos históricos que alteraram, para sempre, o rumo de um país que acabara de “nascer”.
Só um grande homem, senhor de uma grande inteligência, associada a uma bondade e sensibilidade extremas, conseguiria ter arquitectado, executado e convencido os seus colaboradores, mais próximos, da importância do seu plano para a união de um povo, que se encontrava completamente desunido, por motivos raciais.
Mandela é um grande senhor, mas acima de tudo um grande ser humano pois, com a sua história de vida, mostrou ao mundo que os sonhos devem ser perseguidos até ao fim, sem haver lugar para desistências, que o amor é o sentimento mais forte de todos, tudo possibilita!
Mandela, preso 27 anos, por motivos políticos, numa cadeia onde as condições de vida eram inóspitas, nunca desistiu de si, do seu sonho, do seu povo. Nos momentos de maior fraqueza escrevia, reflectia, lia.
A frase proferida durante o longo tempo que esteve preso “Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma” define bem o Homem em que se tornou, o estadista que foi, o ser humano simples, humilde, mas de uma grande força de vontade e convicção nos seus ideais que, apenas, se tornou no primeiro presidente negro da África do Sul!
“Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma”, frase chave que encerra em si toda a personalidade de um ser humano e a ideia principal do filme!
As luzes acenderam-se, continuei sentada, saboreando a música final, enquanto o meu pensamento, o meu espírito regressavam ao espaço físico que deixaram no início.
Saio e, na memória, retenho a frase emblemática, que congrega em si toda a ideologia e filosofia do filme:“Somos senhores do nosso destino, comandantes da nossa alma”!
Que lição de vida,que coragem, que clareza de ideias!
O pacote das pipocas continuava quase cheio!
quinta-feira, 25 de março de 2010
Resgate
Agora, neste momento, recuo nas memórias temporais do que fui, do que fiz, do que dei.
A escolha de caminhos, aparentemente, mais fáceis e sem obstáculos, que impedissem a caminhada, foi uma constante demasiado repetitiva, na viagem iniciada há bastantes anos atrás.
A Vida, aquela que se almeja, plena de bem-estar interior e de acordo com os ditames da consciência, só se consegue, muitas vezes, com esforço e coragem.
O sabor triunfal, das melhores conquistas, alcança-se após muita persistência e, sobretudo, na não desistência de nós próprios, acreditando nas capacidades que existem no íntimo de cada um.
Na vida, as maiores vitórias resultam de um querer consciente, de uma força de vontade inabalável e de uma coragem em lutar, firmemente, pelas nossas convicções.
Neste caminho percorrido, as etapas, que o compuseram, nem sempre foram calcorreadas da melhor maneira, com muito tempo de descanso entre o momento da partida e a chegada desejada. A persistência da comodidade na caminhada caracterizou grande parte delas.
A maturidade, que vem com as experiências da vida, faz-nos perspectivar, qual caleidoscópio da vida, os diferentes ângulos existentes.
Cabe escolher o que nos faça sentir e ser mais felizes, verdadeiros e autênticos de acordo com os ideais que defendemos.
Páscoa, tempo de reflexão, tempo de resgatar o Eu que sou, tempo de renascimento pessoal!
A escolha de caminhos, aparentemente, mais fáceis e sem obstáculos, que impedissem a caminhada, foi uma constante demasiado repetitiva, na viagem iniciada há bastantes anos atrás.
A Vida, aquela que se almeja, plena de bem-estar interior e de acordo com os ditames da consciência, só se consegue, muitas vezes, com esforço e coragem.
O sabor triunfal, das melhores conquistas, alcança-se após muita persistência e, sobretudo, na não desistência de nós próprios, acreditando nas capacidades que existem no íntimo de cada um.
Na vida, as maiores vitórias resultam de um querer consciente, de uma força de vontade inabalável e de uma coragem em lutar, firmemente, pelas nossas convicções.
Neste caminho percorrido, as etapas, que o compuseram, nem sempre foram calcorreadas da melhor maneira, com muito tempo de descanso entre o momento da partida e a chegada desejada. A persistência da comodidade na caminhada caracterizou grande parte delas.
A maturidade, que vem com as experiências da vida, faz-nos perspectivar, qual caleidoscópio da vida, os diferentes ângulos existentes.
Cabe escolher o que nos faça sentir e ser mais felizes, verdadeiros e autênticos de acordo com os ideais que defendemos.
Páscoa, tempo de reflexão, tempo de resgatar o Eu que sou, tempo de renascimento pessoal!
terça-feira, 23 de março de 2010
Entrega
Hoje, vou-me entregar ao ritmo da música, sentir a magia das notas, numa escala de compassos, vou-me embalar nos movimentos naturais e, hipnotizada pela cadência dos acordes, solto o espírito, liberto-o!
Reencontro-me na essência do que sou, na certeza do que quero.
Hoje, vou-me entregar à alma da música, resgatando-me de mim própria.
Reencontro-me na essência do que sou, na certeza do que quero.
Hoje, vou-me entregar à alma da música, resgatando-me de mim própria.
O Amor
O Amor!
Ah o amor, esse, que rima com dor e torpor, mas também com calor e ardor.
O amor, pelos poetas cantado e em versos declamado, é «fogo que arde sem se ver» num calor interior que, rimando com pudor, desnuda emoções, em gestos disfarçados, de olhares não olhados.
«É urgente o amor», e o grito do poeta ecoa nos silêncios consubstanciados dos amantes separados.
«É urgente o amor, é urgente o amor» e o grito do poeta ecoa no coração dos homens entorpecido pela dor do desamor, que não rima com esperança no presente que se alcança.
O amor, ah o amor, esse, que renasce na paixão pressentida, no despertar dos sentidos,no desejo consumado de amantes enleados, num abraço ligados, na fusão dos corpos suados.
O amor é pura magia,é redenção, salvação!
O Amor, ah o amor…
Ah o amor, esse, que rima com dor e torpor, mas também com calor e ardor.
O amor, pelos poetas cantado e em versos declamado, é «fogo que arde sem se ver» num calor interior que, rimando com pudor, desnuda emoções, em gestos disfarçados, de olhares não olhados.
«É urgente o amor», e o grito do poeta ecoa nos silêncios consubstanciados dos amantes separados.
«É urgente o amor, é urgente o amor» e o grito do poeta ecoa no coração dos homens entorpecido pela dor do desamor, que não rima com esperança no presente que se alcança.
O amor, ah o amor, esse, que renasce na paixão pressentida, no despertar dos sentidos,no desejo consumado de amantes enleados, num abraço ligados, na fusão dos corpos suados.
O amor é pura magia,é redenção, salvação!
O Amor, ah o amor…
domingo, 21 de março de 2010
A poesia primaveril
Domingo, 21 de Março, início oficial da Primavera, dia mundial da poesia.
O dia despontou tímido, envergonhado pela chuva que caíra na véspera.
O Sol, zangado com as nuvens, de humor acinzentado e choro constante, espreguiçou os seus raios longos e quentes, cansado de tanta preguiça!
Afinal ele era o astro rei! Não podia deixar de comparecer nas boas vindas à Primavera.
Ainda tonto, do longo sono em que se afundara, esfregou os olhos, encandeando-se pelas cores alegres de um arco-íris, que se arqueava por entre algumas nuvens mais teimosas. Espreitou, lá do alto, e alegrou-se com a vida que viu despontar a seus pés.
Sorriu, num sorriso aberto, e, sorrindo, iluminou, com reflexos dourados, as paisagens que o reverenciaram pelo brilho intenso que derramara.
Em baixo, podia sentir o rebuliço da vida que germinava nos campos matizados de cores, ainda, suaves.
Em algum lugar, perdido no anonimato do ser, um poeta, aquecido pelo calor do Sol descoberto, desvendou os segredos da alma, derramando, no papel, as emoções sentidas, na urgência das palavras não ditas.
Aceitando o presente do Sol, a Primavera, musa graciosa, inspiradora do poeta, envolveu-o no calor dos seus braços, florescendo-o de emoções, em essências de sentidos inebriados.
Nos limites da resistência, o poeta entregou-se, por fim, aos encantos da musa inspiradora, celebrando a sua chegada, com jorros de poesia, lançando-a nas asas do vento cálido, deste primeiro dia de Primavera.
E a poesia fez-se,na comemoração do seu dia!
O dia despontou tímido, envergonhado pela chuva que caíra na véspera.
O Sol, zangado com as nuvens, de humor acinzentado e choro constante, espreguiçou os seus raios longos e quentes, cansado de tanta preguiça!
Afinal ele era o astro rei! Não podia deixar de comparecer nas boas vindas à Primavera.
Ainda tonto, do longo sono em que se afundara, esfregou os olhos, encandeando-se pelas cores alegres de um arco-íris, que se arqueava por entre algumas nuvens mais teimosas. Espreitou, lá do alto, e alegrou-se com a vida que viu despontar a seus pés.
Sorriu, num sorriso aberto, e, sorrindo, iluminou, com reflexos dourados, as paisagens que o reverenciaram pelo brilho intenso que derramara.
Em baixo, podia sentir o rebuliço da vida que germinava nos campos matizados de cores, ainda, suaves.
Em algum lugar, perdido no anonimato do ser, um poeta, aquecido pelo calor do Sol descoberto, desvendou os segredos da alma, derramando, no papel, as emoções sentidas, na urgência das palavras não ditas.
Aceitando o presente do Sol, a Primavera, musa graciosa, inspiradora do poeta, envolveu-o no calor dos seus braços, florescendo-o de emoções, em essências de sentidos inebriados.
Nos limites da resistência, o poeta entregou-se, por fim, aos encantos da musa inspiradora, celebrando a sua chegada, com jorros de poesia, lançando-a nas asas do vento cálido, deste primeiro dia de Primavera.
E a poesia fez-se,na comemoração do seu dia!
quinta-feira, 18 de março de 2010
Renovação
Após o fim de uma manhã de trabalho e vislumbrada a possibilidade de usufruir de uma tarde mais calma, deixei-me enfeitiçar pela presença da Primavera que, sem pressa, anuncia a sua chegada.
De vidro aberto, a sensação da brisa suave a fustigar a face inebria os sentidos: com ela, despertam sensações que o inverno adormecera.
O ar é invadido pelo cheiro adocicado das flores a desabrochar.
A mornice preguiçosa da tarde, convida à moleza do corpo, num abandono consentido, antecipando o descanso merecido.
Os sons da Natureza intensificam-se: é o ciclo da vida que inicia o seu processo de renovação.
Com a chegada da Primavera, o ciclo fértil da Natureza recomeça. A vida desponta nas flores, nas árvores, nos animais, no Homem: é o Planeta a renascer.
A consciência da importância deste renascimento, na e pela Natureza, perdeu-se com a aculturação do Homem e o desenvolvimento das sociedades modernas.
O Homem Ocidental esqueceu-se das suas raízes à Terra.
Os rituais de fertilidade, praticados pelos Celtas em honra do deus Cernudos, faziam parte de uma cerimónia cíclica, no decorrer da qual, o sacerdote, representando o lado masculino e activo, entregava-se à sacerdotisa, que representava o lado feminino e passivo da Natureza.
Durante as cerimónias, os sumo-sacerdotes usavam máscaras ou coroas com chifres: símbolo da virilidade necessária à fertilidade.
Estas práticas, repugnadas e proibidas pelo Cristianismo, perderam-se, aos poucos, na memória colectiva dos povos que as praticavam.
A Igreja nunca soube entender a naturalidade e a sacralização que as envolvia.
Entendidas, erradamente, como actos promíscuos, pelo poder crescente de uma igreja que se afirmava, foram mal interpretadas.
A sua existência reverenciava a Deusa Mãe - a Natureza -, e o poder fertilizador, que dela brotava, necessário à perpetuação da vida.
Festejar a chegada da Primavera, é sentir o prazer estonteante do cheiro do verde e da terra, misturados na aragem morna das tardes amenas, é sentir um desejo incontrolável de abarcar, num enorme abraço, a paisagem deslumbrante, enfeitada de tons quentes, é sentir a emoção desperta por um pôr-do-sol alaranjado, de final de dia, que se conflui com o azul luminoso do início da noite.
Festejar a Primavera é abrir o corpo e a alma, soltar emoções, retornando, inconscientemente, às origens ancestrais do que fomos.
De vidro aberto, a sensação da brisa suave a fustigar a face inebria os sentidos: com ela, despertam sensações que o inverno adormecera.
O ar é invadido pelo cheiro adocicado das flores a desabrochar.
A mornice preguiçosa da tarde, convida à moleza do corpo, num abandono consentido, antecipando o descanso merecido.
Os sons da Natureza intensificam-se: é o ciclo da vida que inicia o seu processo de renovação.
Com a chegada da Primavera, o ciclo fértil da Natureza recomeça. A vida desponta nas flores, nas árvores, nos animais, no Homem: é o Planeta a renascer.
A consciência da importância deste renascimento, na e pela Natureza, perdeu-se com a aculturação do Homem e o desenvolvimento das sociedades modernas.
O Homem Ocidental esqueceu-se das suas raízes à Terra.
Os rituais de fertilidade, praticados pelos Celtas em honra do deus Cernudos, faziam parte de uma cerimónia cíclica, no decorrer da qual, o sacerdote, representando o lado masculino e activo, entregava-se à sacerdotisa, que representava o lado feminino e passivo da Natureza.
Durante as cerimónias, os sumo-sacerdotes usavam máscaras ou coroas com chifres: símbolo da virilidade necessária à fertilidade.
Estas práticas, repugnadas e proibidas pelo Cristianismo, perderam-se, aos poucos, na memória colectiva dos povos que as praticavam.
A Igreja nunca soube entender a naturalidade e a sacralização que as envolvia.
Entendidas, erradamente, como actos promíscuos, pelo poder crescente de uma igreja que se afirmava, foram mal interpretadas.
A sua existência reverenciava a Deusa Mãe - a Natureza -, e o poder fertilizador, que dela brotava, necessário à perpetuação da vida.
Festejar a chegada da Primavera, é sentir o prazer estonteante do cheiro do verde e da terra, misturados na aragem morna das tardes amenas, é sentir um desejo incontrolável de abarcar, num enorme abraço, a paisagem deslumbrante, enfeitada de tons quentes, é sentir a emoção desperta por um pôr-do-sol alaranjado, de final de dia, que se conflui com o azul luminoso do início da noite.
Festejar a Primavera é abrir o corpo e a alma, soltar emoções, retornando, inconscientemente, às origens ancestrais do que fomos.
quarta-feira, 17 de março de 2010
A ponta do iceberg
Por iniciativa da bancada do CDS-PP, terá lugar na próxima sexta-feira, dia 19 de Março, na Assembleia da República, um debate sobre a violência e a indisciplina nas escolas.
Esta iniciativa ganhou carácter de urgência devido aos recentes e trágicos acontecimentos que culminaram em perda de vida humana por causa da violência a que as pessoas, em causa, foram sujeitas, nas escolas, onde passavam a maior parte do seu tempo.
Quer o menino, vítima de bullying, desaparecido nas águas do rio Tua, quer o professor, vítima de indisciplina dos alunos, que se suicidou, são dois casos que despertaram a consciência da sociedade, em geral, e do poder político em particular.
Estes casos são a ponta do iceberg de uma realidade, há muito conhecida, mas pouco discutida.
A iniciativa agendada para o dia 19 é louvável. É urgente debater o problema, de uma forma séria e consciente, apesar de algumas vozes discordantes que, num passado ainda bem recente, afirmavam não existir violência nas escolas públicas nacionais.
Esta afirmação demonstra bem a dicotomia existente, no conhecimento da realidade de sectores sociais, entre os agentes do poder político, responsáveis pela tutela de pastas públicas e a sociedade civil que os elegeu.
Negar um problema - impensável para quem contacta diariamente com a realidade Escola - não é de todo a melhor estratégia para o solucionar!
Há violência nas escolas públicas? Há sim!
Há casos de violência entre os estudantes? Também!
Existem professores, alvo de indisciplina, sistemática, por parte de alguns alunos? Sem dúvida!
O contrário acontece? Sim, mas muito raramente.
Perante esta realidade, nua e crua, urge tomar medidas que solucionem o problema, que é de todos nós, não nos iludamos! É a saúde futura do tecido social que está em causa.
Já se perdeu demasiado tempo com manobras evasivas, que o máximo que obtiveram foi o agravar da situação e a morte de dois seres humanos.
No ano das comemorações do centenário da República, regime político que fez da Educação um dos seus grandes estandartes, a melhor homenagem que se lhe poderá fazer é, sem dúvida, a discussão da situação de indisciplina nas escolas que gera violência, desmotivação, desânimo, para todos os intervenientes e que, aos poucos, vai minando os baluartes da sociedade portuguesa.
Se queremos apostar no futuro de Portugal, então tenhamos a coragem de destapar todo o “iceberg”!
Esta iniciativa ganhou carácter de urgência devido aos recentes e trágicos acontecimentos que culminaram em perda de vida humana por causa da violência a que as pessoas, em causa, foram sujeitas, nas escolas, onde passavam a maior parte do seu tempo.
Quer o menino, vítima de bullying, desaparecido nas águas do rio Tua, quer o professor, vítima de indisciplina dos alunos, que se suicidou, são dois casos que despertaram a consciência da sociedade, em geral, e do poder político em particular.
Estes casos são a ponta do iceberg de uma realidade, há muito conhecida, mas pouco discutida.
A iniciativa agendada para o dia 19 é louvável. É urgente debater o problema, de uma forma séria e consciente, apesar de algumas vozes discordantes que, num passado ainda bem recente, afirmavam não existir violência nas escolas públicas nacionais.
Esta afirmação demonstra bem a dicotomia existente, no conhecimento da realidade de sectores sociais, entre os agentes do poder político, responsáveis pela tutela de pastas públicas e a sociedade civil que os elegeu.
Negar um problema - impensável para quem contacta diariamente com a realidade Escola - não é de todo a melhor estratégia para o solucionar!
Há violência nas escolas públicas? Há sim!
Há casos de violência entre os estudantes? Também!
Existem professores, alvo de indisciplina, sistemática, por parte de alguns alunos? Sem dúvida!
O contrário acontece? Sim, mas muito raramente.
Perante esta realidade, nua e crua, urge tomar medidas que solucionem o problema, que é de todos nós, não nos iludamos! É a saúde futura do tecido social que está em causa.
Já se perdeu demasiado tempo com manobras evasivas, que o máximo que obtiveram foi o agravar da situação e a morte de dois seres humanos.
No ano das comemorações do centenário da República, regime político que fez da Educação um dos seus grandes estandartes, a melhor homenagem que se lhe poderá fazer é, sem dúvida, a discussão da situação de indisciplina nas escolas que gera violência, desmotivação, desânimo, para todos os intervenientes e que, aos poucos, vai minando os baluartes da sociedade portuguesa.
Se queremos apostar no futuro de Portugal, então tenhamos a coragem de destapar todo o “iceberg”!
terça-feira, 16 de março de 2010
"A geração do ecrã"
O texto deste post é a cópia de um email recebido. Reporta-se a um episódio, ainda muito presente, na nossa memória, devido ao impacto que provocou.
A opinião defendida, na altura, por Alice Vieira é pertinente e continua válida.
O assunto tratado, num post anterior, constitui a prova cabal da afirmação.
A geração do ecrã
«Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.
Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os 'Morangos com açúcar', só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos – bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.
Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar - é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas).
Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!
O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.
Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.
E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.
E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.
E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos.»
Alice Vieira, Escritora.
A opinião defendida, na altura, por Alice Vieira é pertinente e continua válida.
O assunto tratado, num post anterior, constitui a prova cabal da afirmação.
A geração do ecrã
«Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.
Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os 'Morangos com açúcar', só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos – bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.
Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar - é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas).
Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!
O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.
Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.
E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.
E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.
E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos.»
Alice Vieira, Escritora.
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