Não tenho por norma postar, neste meu espaço,
textos que não sejam da minha autoria.
No entanto, como a excepção confirma a regra, hoje, decidi
colocar um texto pensado, trabalhado e concretizado por três jovens do 9º ano.
O texto resultou da proposta lançada pela professora
de Português – imaginarem uma cena passada no presente, semelhante às estudadas no “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente, com duas personagens
sobejamente conhecidas de todos.
Partilho-o porque o manuscrito, para além de bem
redigido, denota um sentido crítico, cheio de humor e sátira.
Ligeiramente extenso, não deixa de ser uma leitura deliciosa,
sorridente e bem-disposta.
“
(Chega o Dr. Relvas que, exibindo o seu diploma da Lusófona, se dirige, de
imediato, à Barca do Inferno)
Diabo:
Dr. Relvas, já por aqui?
Relvas:
Pois, parece que sim…
Diabo:
Foste rápido!
Relvas: Para onde
se dirige esta barca?
Diabo:
Entrai, entrai que a morada não é falsa!
Relvas:
E que sabes tu disso?
Diabo:
Não estejas com mais conversas que é este o teu destino.
(Enquanto
as duas personagens discutem, surge, inesperadamente, um vulto com a face
oculta, transportando, debaixo do braço um Magalhães).
Sócrates:
Ó da barca!
Relvas:
Ah, és tu, nem te estava a conhecer!
Diabo:
Só faltava cá este…
Relvas:
Ó meu fiel companheiro, chegaste rápido!
Sócrates:
Vim de TGV já que o aeroporto de Beja foi encerrado.
Relvas:
Sempre tiveste a mania das grandezas…
Diabo:
Chega de conversa fiada, entrai!
Sócrates:
No.
Diabo:
Yes.
Sócrates:
Bem me parecia que te conhecia de algum lado. Por acaso não nos teremos cruzado
no exame de Inglês Técnico na Independente?
Diabo:
Impossível, ao domingo descanso…
Relvas:
Não lhe dês mais conversa, vamos mas é para o paraíso que já lá temos lugar
marcado.
(As
duas personagens dirigem-se para a Barca do Anjo).
Sócrates:
Tu aí, deixai-nos entrar!
Anjo:
E por que haveria eu de o fazer?
Sócrates:
Somos homens de bem.
Anjo:
E pensais tu que endividar o país é um ato de bem?
Sócrates:
Eu sempre quis fazer de Portugal um país pobre, (engasgando-se) perdão, mais rico!
Anjo:
Neste batel divinal não embarca tirania.
Relvas:
Olhai para o que trazemos!
(Relvas
e Sócrates exibem um Diploma e um Magalhães).
Anjo:
Esses símbolos que trazeis, aqui, não vos servem de nada.
Relvas:
Como sabes tu isso, se ainda nem o meu diploma viste?
Anjo:
Não vale a pena. No Céu, não se dão equivalências.
Sócrates:
Olha lá, Anjo, dá-me um freepass para
entrar na tua barca.
Anjo:
Não te chegou o Freeport? Ide
embora que aqui não tendes lugar!
(Percebendo
que não tinham outra opção, os dois dirigem-se para o Batel Infernal. Prestes a
embarcarem…)
Sócrates:
Ó Relvas, como é que entro melhor: assim, com o pé direito ou assim, com o pé esquerdo?