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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Lembranças


O calor abafado e quase irrespirável destes últimos dias transportou-me para um tempo, bem lá atrás, já tornado acervo das minhas memórias, que me fez relembrar Formilo. Sempre Formilo recordado com carinho e muita ternura e muita saudade.
A canícula abrasadora que preguiça a vontade, outrora e agora, faz apetecer o nada fazer, na procura de um abrigo fresco e revigorante que amenize a soalheira dos dias.
Nesse tempo, em que as férias eram passadas na pacatez aldeã, as tardes de Agosto, quando o calor apertava e a moleza despertava, eram passadas na penumbra fresca e saborosa do casarão beirão erguido num granítico baluarte.
Lá fora, apenas o cri cri das cigarras cortava o silêncio da vida que parecia suspensa, quase adormecida nas tardes preguiçosas e tranquilas que se estendiam sem tempo, sem pressa.
O casarão permanece lá, implantado no coração da aldeia, não esquecido, mas distante, perdido na beleza da paisagem serrania que embala os meus sonhos acordados.
Sempre Formilo: intocável, firme e altivo, guardião de inúmeras histórias de vida que se sucedem através de gerações.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

Personificação



Não foram os discursos institucionais e esquecia-me, por completo, que o descanso de hoje não se deveu a ser um domingo, igual a tantos outros, mas antes uma segunda-feira de feriado.
Um feriado borralhento prestes a lacrimejar, deslembrado do Verão ou então baralhado com a confusão em que o país mergulhou.
Em dias assim, em que o lá fora é apenas vislumbrado através da vidraça do escritório onde me encafuo, não me importo que o dia se entristeça de cinzento e ameace chorar.
Deixá-lo calado e amuado, de costas voltadas ao Verão. De novo há-de sorrir, irradiar felicidade, perder-se por entre as traquinices da infantilidade da idade e desafiar-me a sonhar com as férias e o descanso.
Por ora, volto-lhe as costas e finjo não o ouvir rezingar.
 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pro bono


Enquanto vou ouvindo a entrevista, as ideias atropelam-se e conduzem o meu pensamento para campos que parecem nada ter a ver com o que passa na RTP 1.
Do nada, avivo o conceito de “área vocabular” ou “campo lexical”, conteúdo que é trabalhado em Português, e, de repente, vejo-me a construir uma área vocabular em redor do que ouço e vejo: raposa; artimanha, falácia; esperteza; estratégia, falsidade; incongruência; incredulidade, embuste…
Estes dois anos não alteraram em nada a personalidade de José Sócrates: mantém-se igual a si próprio.
Por que será que não consigo acreditar na magnificência de carácter que pretende transmitir?




Regresso


Ei-lo que volta, não por entre a sombra de um dia de nevoeiro, mas antes esgueirando-se por entre os pingos de chuva (e pelas críticas), imune à controversa que o seu regresso gerou.
Quando há dois anos se afastou do governo, do partido, do país e rumou até Paris, mantendo-se num mutismo absoluto, afirmei que se tratava de uma retirada estratégica e que, mais cedo ou mais tarde, voltaria. Não me enganei!
Na altura, Sócrates percebeu que perdera uma batalha, mas não a guerra. Fez do silêncio o seu maior aliado, e deixou que a conjuntura económica mundial, associada às directrizes de uma Europa a duas velocidades, se encarregasse de piorar a situação económica, política e social que deixara quando se afastou de Portugal.
Não teve pressa, soube esperar o momento oportuno para reaparecer. Foram dois anos minuciosamente pensados, ponderadamente planeados, detalhadamente arquitectados na não desistência do poder.
Hoje, é o grande dia. A campanha política para o futuro cargo, que nega pretender, inicia-se com esta entrevista.
Estou curiosa em ver como é que se vai esgrimir das perguntas incómodas que lhe irão colocar. Uma certeza, eu tenho: ir-se-á escusar da melhor maneira, pois “lábia” foi arte que nunca lhe faltou!
Oiçamo-lo, então!



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Coisas do tempo


A seguir a uma tempestade revolta, inundada e ventosa, surge sempre a bonança em forma de quietude e calma.
Depois de um período bem alagado, com estragos pelo meio, eis que o tempo meteorológico parece querer dar tréguas e despir as vestes das últimas semanas.
Ainda bem, pois a continuar assim, o verdete invadia-nos até a alma!
Hoje, lá no alto, cintilante e escuro, uma lua prateada e bem redonda parecia querer proclamar o fim da tristeza do tempo.
Algures, aqui em baixo, olhei para o céu, cravejado de minúsculos pontos luzentes, prateados, iluminados pelo brilho intenso de uma lua avantajada e saboreei a serenidade da noite que se abria, por fim, numa alegoria de saudade, há muito desejada.




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os desígnios de um país




Parece-me que, nos últimos tempos, andamos todos um pouco baralhados, confusos, descrentes: com os nossos políticos; com os especialistas e as suas avalizadas opiniões; com os resultados dos estudos técnicos encomendados; com as medidas neles apontadas, mas disfarçadas de sugestões; com a variedade de opiniões que se cruzam e se gladiam em fervorosas discussões; com a informação veiculada pelos órgãos de comunicação social; com a constatação de que a realidade, independentemente, da cor partidária, do génio discursivo ou da eloquência do orador, é difícil, é dura, é a nossa.
Os tempos são incertos, imprevisíveis, inconstantes: deita-se adormecido num contexto económico, político e social com determinados contornos e, em escassas horas de sono, tudo se pode alterar, numa reviravolta, qual passe de mágico que azurzia qualquer um.
Como planear o que quer que seja? Como pensar em soluções? Como encontrar estratégias? Como gerir uma casa? Como administrar um pecúlio se os pressupostos se alteram em fracções de tempo? Que angústia, quase impotência!
Este velho e venerável continente foi, no passado, o centro estratégico de decisões que influenciaram o mundo, que escreveram a História.
Europa, outrora estratega arguta e resoluta, adormeceu no reflexo narcisista de si. Sonhou por demasiado tempo. Quando acordou, apercebeu-se de quão ilusório fora o seu longo sono. A vida passara-lhe ao lado: disfarçada, silenciosa, matreira, arquitectando novos donos e senhores com a sua própria complacência e anuência.
Agora, corre e, com ela, todos nós, numa corrida desenfreada, quase perdendo o fôlego, com o esforço da passada, ora meios perdidos ora meios encontrados, com muitas dúvidas e um senão: deixarmo-nos vencer pelo cansaço, mas, acima de tudo, a certeza de que é proibido desistir.  



 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Breves segundos

Último dia do ano!
O limite entre o que terminou e o que está prestes a iniciar-se, entre o conhecido, sobejamente sabido e a esperança que se renova na incógnita do amanhã, no ainda tanto para se viver.
No entanto, no momento exacto em que se iniciar a contagem decrescente que findará com ano velho e receberá o novo ano, decorrerão apenas uns segundos, uns breves segundos na sucessão da contagem do tempo. Uns segundos que parecem influenciar a vida de cada um de nós, um pouco por esse mundo fora.
Como se nesses derradeiros segundos a consciência das decisões irremediavelmente adiadas, das decisões irremediavelmente tomadas, ecoasse no silêncio de cada ser. Também os sonhos, alguns tornados quimeras de tanto sonhados, mas nunca concretizados.
Nesses segundos mágicos, ao som de cada uma das doze badaladas, marteladas pelo relógio do tempo, caberão as lembranças de todos os que foram importantes, de todos os que me marcaram, de todos os que significaram, neste ou naquele momento da vida.
Para eles e para todos os que me lerem, o desejo de um Bom 2013!
 
 
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal


Natal! Quantos sinónimos brotam de Ti? Nascimento, Renovação, Recomeço, Esperança.
O verdadeiro Natal não é o dos presentes distribuídos sob o fascínio de uma reluzente árvore a lembrar a ancestralidade do homem enraizada em práticas pagãs que se foram diluindo na cultura de séculos e séculos de história.
O genuíno Natal não é o do fascínio dos embrulhos coloridos arrumados sob a copa de uma árvore resplandecente, repleta de luzinhas intermitentes numa explosão de cores, nem o do frenesim do desembrulhar das prendas que se trocam num ritual por vezes esvaziado de sentido.
O puro Natal também não é o do conforto de um espaço aquecido pelo calor de uma lareira com aromas apetitosos a pairarem no ar e a abrirem o apetite para a ceia que se avizinha.
Não, este não é o verdadeiro Natal, aquele que a vinda do Menino veio anunciar.  
O espírito do verdadeiro Natal contempla-se em gestos simples, por vezes esquecidos nas rotinas difíceis de uma vida apressada, dificultada e que por isso não vê os que também não a têm facilitada e se encontram em situações bem mais dramáticas que a nossa.
O Natal, com o verdadeiro espírito que Ele veio anunciar, terá de partir de uma reflexão interior para que se O vivencie em cada dia que se acorda, conscientes que somos seres em constante construção e por isso sujeitos a falhas: nós e cada um dos nossos irmãos.
Façamos com que a semente, que o nascimento do Menino plantou, germine nos nossos corações, nos nossos gestos, nas nossas atitudes, nas nossas acções, nos nossos pensamentos, no olhar com que analisamos o outro e se mature no íntimo de cada um de nós. Por ela, sejamos a centelha de Luz que ajuda a iluminar o caminho de todos os que desistiram, esqueceram, desalentaram-se da vida e adormeceram os seus corações empedernidos pelas agruras da existência.
Que o espírito do verdadeiro Natal nos envolva e, por ele, compreendamos e pratiquemos a mensagem de paz, amor, perdão connosco e com cada um dos nossos irmãos. Depois, façamos então a festa sem distinção de cores, credos, ideias, destituída de preconceitos e mágoas.
Um Feliz e Santo Natal para cada um de vós.

 

 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Outrora


Há pouco, numa nesga de tempo, entre as inúmeras rotinas domésticas, dei um pulito ao café e, enquanto aguardava pelo pão quente que sairia do forno, entretive-me a ver TV. Na RTP 1, passava o Natal dos Hospitais.
Quando eu era pequena, este dia era ansiosamente esperado, antecipadamente saboreado pelo prenúncio da aproximação do Natal, pela certeza de uma tarde bem passada com o entretenimento dos artistas mais acarinhados do público.
Nesse dia, a criançada esquecia-se do bulício das brincadeiras e aquietava-se em frente ao ecrã da televisão a ver desfilar cantores, actores, cómicos, apresentadores envoltos no glamour próprio do mundo dos artistas.
O Natal dos Hospitais atravessou várias gerações na importância que significou.
Hoje, quase se dilui na imensa e apelativa programação oferecida pelas várias estações televisivas da concorrência e já não cativa nem crianças nem adultos. Perdeu a importância que outrora tivera.
Como tudo na vida, a relevância de um dado facto, substância ou ente, é relativa e depende da conjugação de vários factores.  
O passado, quando se veste de presente, jamais se delineará com os contornos de antes.
É uma das certezas da vida.

 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Uma aula diferente



Hoje, aprendi um pouco mais sobre cidadania: responsável, participativa, colaborante e ativa, conjuntamente com os meus alunos.
Aceitando o repto lançado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, abracei o projecto “O Ces vai à Escola” e inscrevi a minha turma na actividade “Orçamento Participativo”.
A curiosidade, a expectativa e a ansiedade eram muitas.
Curiosidade em perceber como um tema, aparentemente tão árido e desmotivador, se poderia tornar atraente e apelativo para alunos do 6º ano de escolaridade; expectativa em poder verificar, in loco, a reacção dos alunos a uma estratégia diferente e aliciante de ensino-aprendizagem; ansiedade por, ao fim de tantos anos, poder dar o meu contributo para a divulgação, em contexto de sala de aula e de uma forma lúdica, o âmbito das Ciências Sociais e Humanas.
Foram 90 minutos que se esfumaram: motivantes, intensos, participados, cooperados.
A turma correspondeu totalmente ao desafio proposto e, a brincar, aprendeu uma lição de Democracia, de Re(s)pública.
Eu terei ajudado a plantar uma semente que, de algum modo, frutificará num amanhã.

 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ausência


Muito, muito de fugida, empurrada pela pressa, dou um salto ao blog. Reparo na data do meu último texto e apercebo-me de que há já uns dias que não passava por aqui.
Quase sempre esta ausência é prenúncio de falta de tempo, de avalanche de trabalho que determinados momentos específicos do ano impõem.
Mesmo condicionada pelos afazeres, enregelada pelo frio que voltou e cansada de um dia compridíssimo, não resisti à tentadora provocação de dar aqui um pulito e cinzelar a minha fugaz presença nas palavras que escrevi.




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Em jeito de brincadeira


Não tenho por norma postar, neste meu espaço, textos que não sejam da minha autoria.
No entanto, como a excepção confirma a regra, hoje, decidi colocar um texto pensado, trabalhado e concretizado por três jovens do 9º ano.
O texto resultou da proposta lançada pela professora de Português – imaginarem uma cena passada no presente, semelhante às estudadas no “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente, com duas personagens sobejamente conhecidas de todos.
 Partilho-o porque o manuscrito, para além de bem redigido, denota um sentido crítico, cheio de humor e sátira.
Ligeiramente extenso, não deixa de ser uma leitura deliciosa, sorridente e bem-disposta.

 “ (Chega o Dr. Relvas que, exibindo o seu diploma da Lusófona, se dirige, de imediato, à Barca do Inferno)
Diabo: Dr. Relvas, já por aqui?
Relvas: Pois, parece que sim…
Diabo: Foste rápido!
Relvas: Para onde se dirige esta barca?
Diabo: Entrai, entrai que a morada não é falsa!
Relvas: E que sabes tu disso?
Diabo: Não estejas com mais conversas que é este o teu destino.
(Enquanto as duas personagens discutem, surge, inesperadamente, um vulto com a face oculta, transportando, debaixo do braço um Magalhães).
Sócrates: Ó da barca!
Relvas: Ah, és tu, nem te estava a conhecer!
Diabo: Só faltava cá este…
Relvas: Ó meu fiel companheiro, chegaste rápido!
Sócrates: Vim de TGV já que o aeroporto de Beja foi encerrado.
Relvas: Sempre tiveste a mania das grandezas…
Diabo: Chega de conversa fiada, entrai!
Sócrates: No.
Diabo: Yes.
Sócrates: Bem me parecia que te conhecia de algum lado. Por acaso não nos teremos cruzado no exame de Inglês Técnico na Independente?
Diabo: Impossível, ao domingo descanso…
Relvas: Não lhe dês mais conversa, vamos mas é para o paraíso que já lá temos lugar marcado.
(As duas personagens dirigem-se para a Barca do Anjo).
Sócrates: Tu aí, deixai-nos entrar!
Anjo: E por que haveria eu de o fazer?
Sócrates: Somos homens de bem.
Anjo: E pensais tu que endividar o país é um ato de bem?
Sócrates: Eu sempre quis fazer de Portugal um país pobre, (engasgando-se) perdão, mais rico!
Anjo: Neste batel divinal não embarca tirania.
Relvas: Olhai para o que trazemos!
(Relvas e Sócrates exibem um Diploma e um Magalhães).
Anjo: Esses símbolos que trazeis, aqui, não vos servem de nada.
Relvas: Como sabes tu isso, se ainda nem o meu diploma viste?
Anjo: Não vale a pena. No Céu, não se dão equivalências.
Sócrates: Olha lá, Anjo, dá-me um freepass para entrar na tua barca.
Anjo: Não te chegou o Freeport? Ide embora que aqui não tendes lugar!
(Percebendo que não tinham outra opção, os dois dirigem-se para o Batel Infernal. Prestes a embarcarem…)
Sócrates: Ó Relvas, como é que entro melhor: assim, com o pé direito ou assim, com o pé esquerdo?





terça-feira, 27 de novembro de 2012

Subjectividade


Existem certas alturas do ano – lectivo, entenda-se - bastante críticas e condensadas: os finais de período, com os testes para corrigir e a preparação da reunião da direcção de turma para iniciar.
Nestes momentos específicos, o tempo parece variar na razão inversa do volume de trabalho.
Hoje, por entre a correcção de um e outro teste, ia imaginando, sonhando, divagando com uma época em que os professores teriam acesso a máquinas inteligentes que corrigiriam e cotariam, em fracções de segundos, os testes de uma turma inteira.
Ó que deliciosa imagem, acompanhada de um sorriso grato!…
Ainda a evocava e logo se desvaneceu, porque me lembrei das irritantes maquinetas instaladas nas portagens das auto-estradas que substituíram, dispensaram e lançaram para o desemprego mais uns quantos trabalhadores.
Com a necessidade do Estado cortar nas despesas, Vítor Gaspar, o nosso Ministro das Finanças, não desperdiçaria nem perderia a oportunidade de substituir uma parte da massa humana que forma o Ministério da Educação por inúmeras unidades de metal reluzente, cheias de chips, ligações e outras tantas invenções…
Ai que felicidade ter os testes para corrigir!

 

 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Inacabado


Estava eu aqui tranquila, por entre papéis e computador, saltitando de página em página - qualquer coisa do género “aquecimento para o trabalho” – cheia de vontade de produzir e… perdi-me nos pensamentos.
Com eles, vagueei. Pormenorizei detalhes que me houveram escapado.
 Alcancei o sentido de palavras ditas, algumas sussurradas e tantas outras, apenas, silenciadas.
Escutei os ecos do passado, disfarçados de penetrantes subtilezas.
Percebi, nas lembranças que afloram em sorrisos ternos, a fragilidade de sermos.
Galguei o pensamento, interpretei acções, legendei gestos feitos e desfeitos do que fiz ou deixei por fazer.
Sempre que me perco nos pensamentos, agitam-se águas ora calmas ora tempestuosas que me conduzem, inevitavelmente, ao ancoradouro de onde parti: o presente.




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Momentos


Hoje, talvez por causa do dia frio, cortado por um vento encharcado, lembrei-me de outros dias semelhantes, quando ainda andava na faculdade e, durante a semana, ficava em casa da minha avó em Lisboa.
Como era bom, nessa altura, quando saía das aulas, já noite escura, enregelada e molhada, saber que, à minha espera, teria a minha avó, com a sua imensa ternura e uns miminhos que só ela sabia dar, por isso de gosto único e inconfundível.
Sim, era uma doçura chegar a casa, de Inverno feito e, na penumbra do dia, eu e ela, aquecermo-nos com uma boa chávena de chá a fumegar e deliciarmo-nos com umas apetitosas torradas a escorrerem manteiga que preparara para nós.
A sua presença transmitia-me uma segurança, uma tranquilidade, um conforto que só mais tarde percebi, quando o efeito da dormência da sua ausência, aos poucos, foi desaparecendo.
Era bom enroscar-me no carinho e nos mimos da minha avó.
Foi bom esse tempo repleto de amor, compreensão e muita abnegação.  
Sim, hoje, este dia cinzento, varrido pela chuva ininterrupta e enfriado pelo vento que se soltou das vertentes da serra e desceu até à cidade, trouxe-me a sua memória.
Lembrando esses tempos, eternizados porque repetidos, enrosquei-me nos meus filhos, partilhei momentos nossos: o chá foi substituído pelo leite, mas as torradas quentinhas a escorrerem manteiga e o sabor genuíno do momento perduraram.
Um dia, também eles repetirão, com quem ainda não é, histórias, vivências, gestos, afectos, quereres e sentires.
Um dia, também eles se enroscarão em quem sendo, ainda não é, e lembrar-se-ão destes momentos, imortalizando-os.
É a vida a acontecer!