Viajar à infância, é voltar a ser menina, de sorriso aberto, prenha de inocência e a certeza de tudo.
Reviver a infância, é saborear, outra vez, o suco adocicado das maçãs colhidas das árvores; é sentir o roçar da brisa, acariciando o rosto; é correr livremente com os cabelos soltos ao vento, num final de tarde sereno e tranquilo, emoldurado pelo alaranjado, de um pôr - de Sol soberbo, com cheiro a terra e a campo.
Relembrar a infância, é sentir o feitiço do brilho cintilante das luzes perdidas, no escuro da serrania, como um negro manto incrustado de diamantes; é cheirar o quente do ar, ou a brisa amena da noite; é ser embalada pela melodia emanada da água que brota da fonte; é olhar o céu imenso, espelhando o luar prateado de Agosto.
Recordar a infância é rever, à distância, o salto por entre as poças de água e o cheiro a terra seca, após uma breve, mas intensa chuvada de Verão; é o inebriar com a magia irradiada de uma explosão de cores, de um arco-íris maravilhoso e acreditar que, no seu fim, há um tesouro a descobrir.
Viajar à infância, é relembrar a pureza de uma criança moldada mulher, pela vontade do tempo e as congruências da vida.
Viajar à infância é reaver bocadinhos de um tempo passado, numa pausa do presente.
Desafioos é já por si um desafio lançado em forma de repto: "Andas muito filosófica, tens de criar um blogue!". Porque gosto de desafios, aceitei o desafio e criei este blogue.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O Ar do Marão
Homem rude, mas simples, moldado pelas forças agrestes da Natureza, face enrugada, de tanto sol e vento apanhar nas jornas de uma vida, era João, apenas João, já que na aldeia onde nascera, vivera e morrera, assim era conhecido, desde que largara os cueiros e começara, ainda pequeno, a acompanhar o pai e os irmãos na lida do campo.
Eram tempos difíceis, toda a força de trabalho era necessária para o sustento da família.
A meninice? Desconheceu-a! Desde cedo, aprendeu as agruras da vida e descobriu que crescera sem ser menino. Ser menino era um luxo. Ele, filho de camponeses, não soube o que era brincar. Os seus bonecos foram a enxada e o ancinho. Os seus tempos de lazer foram o lavrar a terra e guardar os animais do patrão no monte.
Não aprendeu a ler, não o levaram à escola. As letras e os números eram as plantas, as ervas, os animais, as veredas e caminhos percorridos pelos montes circundantes da terra que o vira nascer.
Cresceu com a Natureza: selvagem, livre, potente. Confundia-se com a paisagem serrana, que fora o seu mestre-escola.
Com o tempo, moldou-se homem: casou, formou família, envelheceu.
Apesar do aspecto rude e simples, era um homem verdadeiro, de espírito transparente e olhar cristalino. Com o decorrer da idade, por vezes, tornava-se matreiro e ladino, como quem revive as traquinices da meninice não sabida.
A sua vida, foram muitos capítulos de uma só história, em que o mais célebre de todos ocorreu, quando era caseiro de uma abastada família da capital, que fazia da aldeia o seu refúgio de férias.
Questionado, sobre a razão das galinhas darem muito poucos ovos, a partir do momento em que a família chegava à aldeia, João respondeu com um ar cândido: «Senhora, as galinhas não dão ovos por causa do ar do Marão»!
Mal sabia João, que a Senhora, matreira como ele, pela escola da vida, vira-o ir à capoeira, ainda o sol despertava em raios sonolentos, apanhar os ovos e levá-los consigo!
A Natureza chamou-o: regressou às urzes e giestas do campo, por entre as fragas e serranias.
Eram tempos difíceis, toda a força de trabalho era necessária para o sustento da família.
A meninice? Desconheceu-a! Desde cedo, aprendeu as agruras da vida e descobriu que crescera sem ser menino. Ser menino era um luxo. Ele, filho de camponeses, não soube o que era brincar. Os seus bonecos foram a enxada e o ancinho. Os seus tempos de lazer foram o lavrar a terra e guardar os animais do patrão no monte.
Não aprendeu a ler, não o levaram à escola. As letras e os números eram as plantas, as ervas, os animais, as veredas e caminhos percorridos pelos montes circundantes da terra que o vira nascer.
Cresceu com a Natureza: selvagem, livre, potente. Confundia-se com a paisagem serrana, que fora o seu mestre-escola.
Com o tempo, moldou-se homem: casou, formou família, envelheceu.
Apesar do aspecto rude e simples, era um homem verdadeiro, de espírito transparente e olhar cristalino. Com o decorrer da idade, por vezes, tornava-se matreiro e ladino, como quem revive as traquinices da meninice não sabida.
A sua vida, foram muitos capítulos de uma só história, em que o mais célebre de todos ocorreu, quando era caseiro de uma abastada família da capital, que fazia da aldeia o seu refúgio de férias.
Questionado, sobre a razão das galinhas darem muito poucos ovos, a partir do momento em que a família chegava à aldeia, João respondeu com um ar cândido: «Senhora, as galinhas não dão ovos por causa do ar do Marão»!
Mal sabia João, que a Senhora, matreira como ele, pela escola da vida, vira-o ir à capoeira, ainda o sol despertava em raios sonolentos, apanhar os ovos e levá-los consigo!
A Natureza chamou-o: regressou às urzes e giestas do campo, por entre as fragas e serranias.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Projecto Âncora
A solidariedade e a partilha são dois valores éticos, que marcam a diferença em muitas situações de vida.
Por um mero acaso, tomei conhecimento da existência de uma organização, «Âncora», sediada em Sintra e que tem por fim prestar apoio a todos os que sentiram e sentem, no mais âmago do seu ser, a dor da perda de um filho.
Não consigo imaginar sequer o tamanho de tal dor, apenas sei, só de o pensar, que será tão intensa, que nem o passar do tempo conseguirá atenuar os efeitos que provoca: dormência do ser, perda do querer.
Esta organização promove reuniões, em várias partes do país, e, com este gesto, envolve, num enorme abraço de solidariedade e entreajuda, todos os que sentiram a vertigem provocada pela perda.
A dor espelhada no rosto, em marcas profundas, tão negras como as vestes que envergam transmite, sem a necessidade do recurso à palavra, toda a angústia, toda a tristeza daquelas mães que encontraram, na «Âncora», a corrente que as prende à vida e as impede de naufragarem.
Como afirmava uma das mães, num lamento perdido, quase um sussurro inaudível «eles nunca morrem, não é? eles só morrem quando nós partirmos, vão connosco...».
Uma frase que encerra em si todo o amor de mãe e só verdadeiramente (pre) sentida por quem é mãe.
http://www.anossaancora.org/
Por um mero acaso, tomei conhecimento da existência de uma organização, «Âncora», sediada em Sintra e que tem por fim prestar apoio a todos os que sentiram e sentem, no mais âmago do seu ser, a dor da perda de um filho.
Não consigo imaginar sequer o tamanho de tal dor, apenas sei, só de o pensar, que será tão intensa, que nem o passar do tempo conseguirá atenuar os efeitos que provoca: dormência do ser, perda do querer.
Esta organização promove reuniões, em várias partes do país, e, com este gesto, envolve, num enorme abraço de solidariedade e entreajuda, todos os que sentiram a vertigem provocada pela perda.
A dor espelhada no rosto, em marcas profundas, tão negras como as vestes que envergam transmite, sem a necessidade do recurso à palavra, toda a angústia, toda a tristeza daquelas mães que encontraram, na «Âncora», a corrente que as prende à vida e as impede de naufragarem.
Como afirmava uma das mães, num lamento perdido, quase um sussurro inaudível «eles nunca morrem, não é? eles só morrem quando nós partirmos, vão connosco...».
Uma frase que encerra em si todo o amor de mãe e só verdadeiramente (pre) sentida por quem é mãe.
http://www.anossaancora.org/
Acasos da Vida
Há acasos, inesperados, surpreendentes (se assim não fosse, não o seriam) que, quando ocorrem, obrigam-nos a reflectir sobre o entrelaçado da vida, despertando, ou realçando, em nós, a vertente mais humana que, envergonhadamente, teimamos em esconder do mundo, como se fosse um sinal de fraqueza que não nos é permitido ter, segundo os parâmetros sociais que nos impõem.
Hoje, ocorreu um desses acasos, e num "close up" de recordações, veio-me à memória uma frase, lida algures, mas não esquecida no tempo, que dizia algo do género «quando entrares numa livraria, e te perderes na infinidade e diversidade da oferta, não te preocupes, porque o livro certo vai-te escolher e fará com que o saibas e o encontres».
Tal como na livraria, também na nossa rotina quotidiana, há ocasiões em que parece que as situações nos escolhem, para acontecerem.
E então, paramos, pensamos, reflectimos e, mais do que tudo, agradecemos: agradecemos os filhos perfeitos que gerámos, agradecemos o trajecto de vida que percorrem, sem (in) acidentes, gratificamo-nos pelo emprego que mantemos, pelos bens materiais que nos permitimos ter, agradecemos pela saúde, baluarte de autonomia de vida, agradecemos pelos amigos que sabemos estarem lá, agradecemos por podermos admirar o pôr-do-sol e emocionarmo-nos com o luar, de uma noite de Agosto, agradecemos por podermos acordar, ainda, ao som do chilrear dos pássaros, escutarmos o canto das cigarras e a sinfonia dos grilos, agradecemos pela infinidade do que temos e, principalmente, porque não estamos do lado dos que não têm tantas razões para agradecer.
E depois de agradecermos todas as maravilhas da vida, desejamos poder continuar a ter motivos para nunca pararmos de o fazer.
Agradeço, Senhor, por tudo o que eu tenho, por tudo o que eu sou, por tudo o que eu posso fazer acontecer em meu redor.
Obrigado!
Hoje, ocorreu um desses acasos, e num "close up" de recordações, veio-me à memória uma frase, lida algures, mas não esquecida no tempo, que dizia algo do género «quando entrares numa livraria, e te perderes na infinidade e diversidade da oferta, não te preocupes, porque o livro certo vai-te escolher e fará com que o saibas e o encontres».
Tal como na livraria, também na nossa rotina quotidiana, há ocasiões em que parece que as situações nos escolhem, para acontecerem.
E então, paramos, pensamos, reflectimos e, mais do que tudo, agradecemos: agradecemos os filhos perfeitos que gerámos, agradecemos o trajecto de vida que percorrem, sem (in) acidentes, gratificamo-nos pelo emprego que mantemos, pelos bens materiais que nos permitimos ter, agradecemos pela saúde, baluarte de autonomia de vida, agradecemos pelos amigos que sabemos estarem lá, agradecemos por podermos admirar o pôr-do-sol e emocionarmo-nos com o luar, de uma noite de Agosto, agradecemos por podermos acordar, ainda, ao som do chilrear dos pássaros, escutarmos o canto das cigarras e a sinfonia dos grilos, agradecemos pela infinidade do que temos e, principalmente, porque não estamos do lado dos que não têm tantas razões para agradecer.
E depois de agradecermos todas as maravilhas da vida, desejamos poder continuar a ter motivos para nunca pararmos de o fazer.
Agradeço, Senhor, por tudo o que eu tenho, por tudo o que eu sou, por tudo o que eu posso fazer acontecer em meu redor.
Obrigado!
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Rosa Lobato Faria
Quando editei o post anterior, nunca supus que este pudessse estar tão interligado com o assunto do presente post: a homenagem à escritora Rosa Lobato Faria.
Confesso que pouco conhecia desta senhora, a não ser no papel de actriz, na sua breve passagem pela televisão, através das telenovelas em que participou e num ou outro programa de entreternimento.
Como leitora devoradora que sou,o nunca ter incluído livros desta autora nas minhas opções de leitura, não é mais que uma gafe literária cometida.
A consciência deste facto foi despertada através de um mail recebido que me possibilitou, de um modo breve, um contacto com uma identidade literária que desconhecia.
Pela maneira como se posicionou perante os desafios da vida, pelas escolhas feitas, pela integridade e defesa das escolhas de vida, Rosa Lobato Faria morreu de pé, como as árvores.
Ofereço, em jeito de sugestão, a sua autobiografia, escrita para o JL e publicada há cerca de 2 anos.
É um texto longo, mas com uma fluência de ideias, esculpidas em palavras, que delícia o espírito.
"Autobiografia
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.
Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).
Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.
Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.
Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance."
Rosa Lobato Faria
Confesso que pouco conhecia desta senhora, a não ser no papel de actriz, na sua breve passagem pela televisão, através das telenovelas em que participou e num ou outro programa de entreternimento.
Como leitora devoradora que sou,o nunca ter incluído livros desta autora nas minhas opções de leitura, não é mais que uma gafe literária cometida.
A consciência deste facto foi despertada através de um mail recebido que me possibilitou, de um modo breve, um contacto com uma identidade literária que desconhecia.
Pela maneira como se posicionou perante os desafios da vida, pelas escolhas feitas, pela integridade e defesa das escolhas de vida, Rosa Lobato Faria morreu de pé, como as árvores.
Ofereço, em jeito de sugestão, a sua autobiografia, escrita para o JL e publicada há cerca de 2 anos.
É um texto longo, mas com uma fluência de ideias, esculpidas em palavras, que delícia o espírito.
"Autobiografia
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.
Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).
Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.
Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.
Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).
Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.
Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.
Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance."
Rosa Lobato Faria
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Monumentos Humanos
O tempo passa demasiado rápido e só nos apercebemos disso, quando olhamos para o espelho e não reconhecemos a imagem reflectida.
Nessa passagem do tempo, espraiando-se num percurso de vida, de quase cinquenta anos, muitas têm sido as pessoas que conheci e com quem contactei. Umas, rápido de mais, como fumo esgueirando-se pela chaminé da vida; outras, num compasso mais lento,como as águas de um rio perto da foz: ficaram, permaneceram em imagens nítidas, que o tempo não consegue esbater; marcaram pela importância que tiveram no enredo da vida, pelo modo íntegro, vertical e corajoso com que enfrentaram os desafios que se lhes depararam, agindo sempre de acordo com os seus ideais, mesmos em contextos desfavoráveis, sem nunca desistirem dos sonhos almejados, tal como o marinheiro, que no alto da sua gávea, em pleno oceano,busca, na infinitude do horizonte, uma porção de terra, onde possa amarar e disfrutar do descanso merecido.
Este tipo de pessoas,com quem tive o privilégio de me relacionar, assemelho-as a árvores potentes, fortes, de raízes bem seguras no solo, que nenhuma tempestade consegue derrubar, mesmo que os elementos do tempo se conjuguem em frentes de baixas pressões,acompanhadas de furacões e chuvas torrenciais de pensamentos e palavras, empurradas pelo uivo do vento que parece gritar, sussurrando num murmúrio « desistam».
Este tipo de pessoas, são monumentos humanos e, tal como as árvores, também morrrerão de pé!
Nessa passagem do tempo, espraiando-se num percurso de vida, de quase cinquenta anos, muitas têm sido as pessoas que conheci e com quem contactei. Umas, rápido de mais, como fumo esgueirando-se pela chaminé da vida; outras, num compasso mais lento,como as águas de um rio perto da foz: ficaram, permaneceram em imagens nítidas, que o tempo não consegue esbater; marcaram pela importância que tiveram no enredo da vida, pelo modo íntegro, vertical e corajoso com que enfrentaram os desafios que se lhes depararam, agindo sempre de acordo com os seus ideais, mesmos em contextos desfavoráveis, sem nunca desistirem dos sonhos almejados, tal como o marinheiro, que no alto da sua gávea, em pleno oceano,busca, na infinitude do horizonte, uma porção de terra, onde possa amarar e disfrutar do descanso merecido.
Este tipo de pessoas,com quem tive o privilégio de me relacionar, assemelho-as a árvores potentes, fortes, de raízes bem seguras no solo, que nenhuma tempestade consegue derrubar, mesmo que os elementos do tempo se conjuguem em frentes de baixas pressões,acompanhadas de furacões e chuvas torrenciais de pensamentos e palavras, empurradas pelo uivo do vento que parece gritar, sussurrando num murmúrio « desistam».
Este tipo de pessoas, são monumentos humanos e, tal como as árvores, também morrrerão de pé!
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
"(...)Os contraditórios(...)"in M.C
2 de Fevereiro de 2010, a notícia explodiu em todos os Orgãos da Comunicação Social: Mário Crespo, conceituado jornalista, colaborador do Jornal de Notícias, viu um artigo seu, ser impedido de sair na edição de hoje.
Nesse artigo, de opinião, o jornalista fazia referência a um almoço havido, num conceituado hotel, da capital, entre o Primeiro Ministro, José Sócrates e alguns membros do seu staf, no qual participava, também, um executivo da televisão.
Mário Crespo descrevia o teor da conversa que, pelo tom e intensidade de voz dos interlocutores, fora audível a quem se encontrava nas mesas em redor.
Nessa conversa, segundo fontes fidedignas, que o jornalista afirma possuir,discutia-se o incómodo que as críticas dos seus artigos têm vindo a provocar ao visado: José Sócrates.
É do conhecimento público, a opinião que este jornalista sempre defendeu em relação às políticas do Primeiro Ministro. Hoje, seria mais uma de entre muitas, mas foi silenciada por motivos que escondem-se na razão.Medo?
E este episódio fez-me recordar um tempo em que, também, era proíbido opinar-se de maneira diferente.
Um tempo, em que as palavras consentidas eram propriedade só de alguns.
Um tempo, em que as diferenças de opinião e de pensamento eram sonegadas a qualquer preço e de qualquer modo: os meios justificavam os fins.
Um tempo, em que a diferença de pensamento resistia a todos os ataques, em que os discursos impróprios e indesejados, pelo poder, nasciam de partos difíceis, pelas mãos dos que, sempre, fizeram da palavra a única arma capaz de vencer o autoritarismo, a arrogância, a falta de visão. Aqueles que, contra a força do poder, responderam com a força das palavras, com a força do querer, com a força de um sonho...
Hoje, dia 2 de Fevereiro de 2010, mais um contraditório foi silenciado!
Hoje, 2 de fevereiro de 2010, os ideais de Abril distanciaram-se um pouco mais.
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=161453
Nesse artigo, de opinião, o jornalista fazia referência a um almoço havido, num conceituado hotel, da capital, entre o Primeiro Ministro, José Sócrates e alguns membros do seu staf, no qual participava, também, um executivo da televisão.
Mário Crespo descrevia o teor da conversa que, pelo tom e intensidade de voz dos interlocutores, fora audível a quem se encontrava nas mesas em redor.
Nessa conversa, segundo fontes fidedignas, que o jornalista afirma possuir,discutia-se o incómodo que as críticas dos seus artigos têm vindo a provocar ao visado: José Sócrates.
É do conhecimento público, a opinião que este jornalista sempre defendeu em relação às políticas do Primeiro Ministro. Hoje, seria mais uma de entre muitas, mas foi silenciada por motivos que escondem-se na razão.Medo?
E este episódio fez-me recordar um tempo em que, também, era proíbido opinar-se de maneira diferente.
Um tempo, em que as palavras consentidas eram propriedade só de alguns.
Um tempo, em que as diferenças de opinião e de pensamento eram sonegadas a qualquer preço e de qualquer modo: os meios justificavam os fins.
Um tempo, em que a diferença de pensamento resistia a todos os ataques, em que os discursos impróprios e indesejados, pelo poder, nasciam de partos difíceis, pelas mãos dos que, sempre, fizeram da palavra a única arma capaz de vencer o autoritarismo, a arrogância, a falta de visão. Aqueles que, contra a força do poder, responderam com a força das palavras, com a força do querer, com a força de um sonho...
Hoje, dia 2 de Fevereiro de 2010, mais um contraditório foi silenciado!
Hoje, 2 de fevereiro de 2010, os ideais de Abril distanciaram-se um pouco mais.
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=161453
Virtualismos
A Internet revelou-se, nos últimos anos, como sendo uma das invenções que maiores alterações veio provocar nos hábitos de vida, nas rotinas diárias das pessoas.
Surgindo, como consequência da capacidade humana em vencer desafios, é um exemplo, entre outros, de como o Homem, quando se despe de preconceitos, eleva o seu pensamento a horizontes não imaginados e abre o seu coração à alma do Mundo, faz emergir o lado divino que em si habita.
Com a Internet, as cortinas cerradas das janelas do Mundo rasgaram-se, permitindo vislumbrar cenários desconhecidos, enquanto as fronteiras diluíam-se e a noção do tempo redefinia-se.
Hoje em dia, a Net é o vapor da Web que encurta distâncias, navegando nas águas profundas do mar virtual.
A capacidade do Homem em redescobrir -se e reinventar-se não tem limites: os desafios vencidos são, imediatamente, substituídos por outros a vencer. A senda do desenvolvimento é infinita.
O Futuro é pensado hoje.
Surgindo, como consequência da capacidade humana em vencer desafios, é um exemplo, entre outros, de como o Homem, quando se despe de preconceitos, eleva o seu pensamento a horizontes não imaginados e abre o seu coração à alma do Mundo, faz emergir o lado divino que em si habita.
Com a Internet, as cortinas cerradas das janelas do Mundo rasgaram-se, permitindo vislumbrar cenários desconhecidos, enquanto as fronteiras diluíam-se e a noção do tempo redefinia-se.
Hoje em dia, a Net é o vapor da Web que encurta distâncias, navegando nas águas profundas do mar virtual.
A capacidade do Homem em redescobrir -se e reinventar-se não tem limites: os desafios vencidos são, imediatamente, substituídos por outros a vencer. A senda do desenvolvimento é infinita.
O Futuro é pensado hoje.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Inevitabilidade
Hoje, enquanto limpava a secretária, fui dar com uma pen, já antiga, que se perdera pelas profundezas de uma das gavetas.
Olhando-a, tentava lembrar-me que conteúdos encerraria, numa ansiedade, natural, de quem tem pressa em desvendar segredos pressentidos.
Era uma pen, há muito, não utilizada por ter esgotado a sua capacidade. Abri-a e perdi-me na infinidade de pastas, documentos e imagens. Explorei cada um dos materiais nela guardados. Saboreei, em recordações avivadas, momentos passados, emoções sentidas, ideias defendidas, verbalizações do pensamento.
Cada texto que relia, cada imagem que o olhar percorria, projectava-me para o passado, numa viagem pela rota da memória, trilhada, muitas vezes, em caminhos, sinuosos e difíceis de percorrer, ladeados de recordações de saudade.
E percebi a inevitabilidade do passado no Ser do presente.
Olhando-a, tentava lembrar-me que conteúdos encerraria, numa ansiedade, natural, de quem tem pressa em desvendar segredos pressentidos.
Era uma pen, há muito, não utilizada por ter esgotado a sua capacidade. Abri-a e perdi-me na infinidade de pastas, documentos e imagens. Explorei cada um dos materiais nela guardados. Saboreei, em recordações avivadas, momentos passados, emoções sentidas, ideias defendidas, verbalizações do pensamento.
Cada texto que relia, cada imagem que o olhar percorria, projectava-me para o passado, numa viagem pela rota da memória, trilhada, muitas vezes, em caminhos, sinuosos e difíceis de percorrer, ladeados de recordações de saudade.
E percebi a inevitabilidade do passado no Ser do presente.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Porquê?
Sábado, 02:13 h, a noite mergulha no silêncio.
Lá fora, um carro solitário aventura-se na madrugada.
Olho para o ecrã! Desorientação, vazio: duelo entre o querer e a falta de inspiração.
Começo a ficar preocupada. De repente, a fonte do pensamento cessou de jorrar. Penso « é passageiro». Esta reflexão em nada contribui para a sensação que me invade. Interrogo-me « Porquê?», não obtenho respostas.
Olho, de novo, para o ecrã, reparo na desorientação do seu olhar. Não entende esta crise de palavras. Percebo, no olhar devolvido, a dúvida a nascer. Questiona-me das razões, sente-se tímido na sua nudez, culpa-me!
Não tenho respostas. Sinto o vazio, o nada: invadem o meu pensamento, desnudam-me a razão, esvaziam-me os sentimentos.
Procuro o seu olhar: parado, ausente. Cruzo-o no meu. Intuímo-nos na cumplicidade do nada.
Murmuro « o vazio das ideias cessará».
Acalma-se. Confia. Acredita.
Lá fora, um carro solitário aventura-se na madrugada.
Olho para o ecrã! Desorientação, vazio: duelo entre o querer e a falta de inspiração.
Começo a ficar preocupada. De repente, a fonte do pensamento cessou de jorrar. Penso « é passageiro». Esta reflexão em nada contribui para a sensação que me invade. Interrogo-me « Porquê?», não obtenho respostas.
Olho, de novo, para o ecrã, reparo na desorientação do seu olhar. Não entende esta crise de palavras. Percebo, no olhar devolvido, a dúvida a nascer. Questiona-me das razões, sente-se tímido na sua nudez, culpa-me!
Não tenho respostas. Sinto o vazio, o nada: invadem o meu pensamento, desnudam-me a razão, esvaziam-me os sentimentos.
Procuro o seu olhar: parado, ausente. Cruzo-o no meu. Intuímo-nos na cumplicidade do nada.
Murmuro « o vazio das ideias cessará».
Acalma-se. Confia. Acredita.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
(Des) inspiração
Sento-me, abro o portátil, acedo ao blog, decidida a desabafar, para o papel,a linguagem do espírito: sentimentos e ideias tornadas verbum.
Olho para o ecrã, cúmplice dos meus pensamentos e, perante a sua nudez, aventuro-me a desvirginá-lo de novo.
Sinto-me como um pintor que, perante o branco da tela,decide ousar manchar a sua alvura,de modo a conseguir a obra imaginada, num exercício de criação autêntica e individual.
Olho para o ecrã e o vazio, que o preenche, contagia a minha inspiração.
Tal como o nada do ecrã, que teima em permanecer vazio, assim o nada do meu pensamento que recusa abrir-se em palavras esculpidas pelo escopro do artista.
E perante a candura do vazio, venereio a beleza do nada, que me contagia o espírito.
Fecho-me às ideias, numa recusa da escrita.
Olho para o ecrã, cúmplice dos meus pensamentos e, perante a sua nudez, aventuro-me a desvirginá-lo de novo.
Sinto-me como um pintor que, perante o branco da tela,decide ousar manchar a sua alvura,de modo a conseguir a obra imaginada, num exercício de criação autêntica e individual.
Olho para o ecrã e o vazio, que o preenche, contagia a minha inspiração.
Tal como o nada do ecrã, que teima em permanecer vazio, assim o nada do meu pensamento que recusa abrir-se em palavras esculpidas pelo escopro do artista.
E perante a candura do vazio, venereio a beleza do nada, que me contagia o espírito.
Fecho-me às ideias, numa recusa da escrita.
domingo, 24 de janeiro de 2010
A Magia da Leitura
A leitura e o prazer de «sentir» o livro,sempre me seduziram, tornando-me prisioneira dos seus signos.
Se há recordações de vida, que ficarão para sempre gravadas nas memórias do meu percurso de vida, serão os dias calmos e palatinos das férias grandes, em que ficava suspensa da leitura de um livro, enquanto, lá fora, na calícula do dia, as horas sucediam-se, numa lentidão preguiçosa, própria da moleza gerada pelos dias quentes desta altura do ano.
Neste exercício de memória, todos os pormenores do passado vêem ao de cima com uma nitidez surpreendente: cada traço, cada gesto, cada rosto, cada situação permanecem em mim como um espelho do passado, no qual as imagens aí reflectidas não se esmoreceram com a patine do tempo.
Na casa de férias, implantada na beleza de uma Natureza generosa, nas pessoas e na paisagem, após o almoço familiar, presidido pela avó, lembro-me que, com um livro na mão, dirigia-me para um dos quartos da ala oeste e deitando-me, em cima da cama, iniciava a minha aventura literária.
No exterior, os sons do campo embalavam a preguiça dos seres. As cigarras cantavam a despique, o ar quente entrava pela fresta da janela, acariciando a face e adormecendo os sentidos para o exterior. Era eu e o livro. Cada palavra, cada frase eram lidas sofregamente. Na minha mente, conseguia imaginar os personagens, os ambientes , as paisagens.
E ali, naquele fim de mundo, de uma aldeia perdida nos confins do espaço, onde a quietude do lugar era bálsamo revigorador para o corpo e, sobretudo, para o espírito, rodeada de verde e de serras, eu vivia aventuras ímpares, conhecia lugares exóticos, tornava-me heroína, aniquilava vilões, viajava com a mente, permanecia com o corpo.
Lá fora, a água da fonte continuava o seu percurso ritmado, brotando em jorros ténues, saciando animais e pessoas que ousassem aventurar-se na tarde tórrida.
Lá dentro, eu continuava a viver o livro, cada bocadinho das folhas preenchidas de letras mágicas que me permitiam ir a locais longínquos sem sair de onde estava, hipnotizada pela magia das palavras,numa envolvência magnífica e majestosa.
Foram dias de felicidade, foram momentos únicos que ficarão para sempre guardados na arca da memória.
Se há recordações de vida, que ficarão para sempre gravadas nas memórias do meu percurso de vida, serão os dias calmos e palatinos das férias grandes, em que ficava suspensa da leitura de um livro, enquanto, lá fora, na calícula do dia, as horas sucediam-se, numa lentidão preguiçosa, própria da moleza gerada pelos dias quentes desta altura do ano.
Neste exercício de memória, todos os pormenores do passado vêem ao de cima com uma nitidez surpreendente: cada traço, cada gesto, cada rosto, cada situação permanecem em mim como um espelho do passado, no qual as imagens aí reflectidas não se esmoreceram com a patine do tempo.
Na casa de férias, implantada na beleza de uma Natureza generosa, nas pessoas e na paisagem, após o almoço familiar, presidido pela avó, lembro-me que, com um livro na mão, dirigia-me para um dos quartos da ala oeste e deitando-me, em cima da cama, iniciava a minha aventura literária.
No exterior, os sons do campo embalavam a preguiça dos seres. As cigarras cantavam a despique, o ar quente entrava pela fresta da janela, acariciando a face e adormecendo os sentidos para o exterior. Era eu e o livro. Cada palavra, cada frase eram lidas sofregamente. Na minha mente, conseguia imaginar os personagens, os ambientes , as paisagens.
E ali, naquele fim de mundo, de uma aldeia perdida nos confins do espaço, onde a quietude do lugar era bálsamo revigorador para o corpo e, sobretudo, para o espírito, rodeada de verde e de serras, eu vivia aventuras ímpares, conhecia lugares exóticos, tornava-me heroína, aniquilava vilões, viajava com a mente, permanecia com o corpo.
Lá fora, a água da fonte continuava o seu percurso ritmado, brotando em jorros ténues, saciando animais e pessoas que ousassem aventurar-se na tarde tórrida.
Lá dentro, eu continuava a viver o livro, cada bocadinho das folhas preenchidas de letras mágicas que me permitiam ir a locais longínquos sem sair de onde estava, hipnotizada pela magia das palavras,numa envolvência magnífica e majestosa.
Foram dias de felicidade, foram momentos únicos que ficarão para sempre guardados na arca da memória.
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