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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Noite

Já muitas vezes referi o como a tranquilidade da noite, ligada ao silêncio inerente, provoca em mim uma sensação de bem estar paz interior, conducente a estados de espírito plenos de serenidade, a mesma que a noite envolve nos seus braços, num ambiente interior de amenidade, comunhão de afectos que se reavivam com a ambiência envolvente. Por isso as condições naturais exteriores influenciam -me de um modo que não consigo explicar, apenas senti-lo, elevando-me num turbilhão de sensações emocionais que me fazem sentir bem, alimentam-me a alma, embelezam-me o espírito, fortalecem-me a personalidade, criam e recriam momentos de êxtase espiritual, orgasmos de afecto puro, cândido em que apetece abrir os braços ao mundo e abarcá-lo num enorme e sincero gesto de solidariedade e partilha para com os Outros..
Hoje, nesta bela e calma noite de Verão antecipado, em que apenas se pressente o ritmo sussurrante da vida nocturna, o azul estrelado do céu, iluminado pela luz prateada de uma lua inspiradora de sentires, provoca-me emoções apaziguadoras de mim própria, transporta-me o pensamento, em imagens bem definidas e avivadas, soltando-o no espaço e no tempo, a um local algures, onde, quem sabe, quantos outros seres, neste preciso momento, partilham as mesmas emoções e afectos, embalados pela magia de uma noite de encantamento e fascínio.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Cidade Formosa


Coimbra cidade formosa, de encantos por desvendar. Em teus braços repousam histórias de amor intemporal, de amantes apaixonados, de amores proibidos, castrados e para sempre gravados à beleza do teu nome.
O tempo imortalizou-te! Pelos poetas és cantada, chorada, em versos de saudade! Quantas vezes cortejada em serenatas para ti declamadas. És a musa dos estudantes, a amante nas noites de boémia estudantil. Musa inspiradora...
Coimbra, cidade majestosa, nos braços do Mondego entregaste-te e nas margens tranquilas do seu curso sacias a sede do saber.
Coimbra cidade de beleza estonteante com o rio a teus pés, dás-te em pudicos suspiros e nas suas águas reflectes a eternidade do teu ser.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Anúncio

Na recta final de mais um ano lectivo e na sequência da preparação de um conteúdo programático, “textos utilitários”, de repente, parei o trabalho, recostei-me na cadeira e o esboço de um sorriso começou a desenhar-se-me nos lábios, perante um pensamento que brotara de rompante. Uma traquinice de escrita começava a esboçar-se na minha mente: agradou-me.
Face a uma parte da matéria que ainda iria trabalhar nos poucos dias que faltam,” os anúncios”, resolvi imaginar uma troca de papéis: de professora, eu passaria a ser a aluna, pronta a praticar a teoria transmitida. E quando me fosse pedido que redigisse um anúncio eu (impossível esquecer por completo as preocupações de adulta por mais troca de papéis que possa imaginar) escreveria o seguinte:
“ Procura-se, com a máxima urgência, pessoa adulta (não interessa o sexo, credo ou cor) honesta, trabalhadora, íntegra, com espírito de abnegação, que fale só a verdade, disposta a actos altruístas em prol dos interesses colectivos de uma nação e que tenha a coragem de tomar as medidas necessárias para erguer a moral de um povo, destronado do seu orgulho, vontade e esperança, sem recurso a compadrios, cunhas e pagamento de favores.
Resposta urgente ao gabinete do cidadão anónimo, ferido na alma, esgotado no âmago de si mesmo, quase a desistir, não de ser português, mas do seu país, incrédulo perante a acção de uma classe política e suas encenações teatrais, que não resolvem os problemas do país, mas antes os agravam, “
Assinado: um cidadão anónimo, à beira de uma crise de revolta e com a paciência a atingir o limite do suportável!”

domingo, 13 de junho de 2010

Para Ser Grande Sê Inteiro

Para ser grande, sê inteiro:nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa)

sábado, 12 de junho de 2010

Um estadista de visão

Sempre perspectivei “o ler” como um momento de intensa afectividade entre o livro e eu, leitora. Ler é um dos modos de gerir aqueles bocadinhos de tempo que sobram do tempo formal, obrigatório, imposto, de cara sisuda e ar autoritário.
Pegar num livro, folheá-lo, respirar o cheiro que se desprende do passar do papel, sentir a macieza de cada folha ornada de letras, de sentidos por descodificar, enriquece-me, extasia-me, fascina-me!
Hoje terminei a leitura do “Codex 632”: ficção romanceada de cariz histórico, trama bem urdida em torno da enigmática figura do descobridor das Antilhas, Cristóvão Colombo.
Desde as primeiras páginas (mais uma vez) o presente reencontra-se com o passado, entrecruzam-se: duas histórias paralelas; um elo de ligação; a presença de valores inquestionáveis, que atravessam o tempo e continuam a ser importantes na actualidade; uma certeza refortalecida: a grandiosidade estadista de D.João II, que defendeu, acerrimamente, os interesses de Portugal de um modo ímpar.
Sem dúvida que a História soube escolher, de forma notável, o cognome que lhe atribuiu, “O Príncipe Perfeito”. Não tanto pelos métodos utilizados, antes pelos fins que os serviram: a salvaguarda dos interesses económicos de Portugal face à rivalidade de um reino vizinho, poderoso e grandioso, num contexto político e estratégico que forçou a redesenhar, graças à sua inteligência, visão e perspicácia.
Que o passado ensine o presente!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Reencontro

Sob um manto de névoa e fustigado pelos aguaceiros inesperados para a época, o visitante é surpreendido pela visão de um imponente edifício, belo, genuíno, de aspecto renovado, testemunho vivo de tramas e vidas esquecidas pela passagem do tempo.
O Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha, encerra em si segredos passados, calados, enclausurados nas paredes silenciosas, talhadas em pedra de Ançã.
No espaço fronteiriço, os preparativos para a feira medieval são notórios: tendas, acampamento militar, mercado mouro, campo de torneio e até as torres de um castelo, começam a ganhar visibilidade.
No próximo dia 12, o Mosteiro e zona envolvente reviverão o ambiente característico de uma feira franca fernandina, como se de súbito presente e passado se reencontrassem no mesmo tempo!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Passeando pela História

O feriado que hoje se comemora teve a sua génese no tempo da República.
Ainda mal a revolução acontecera e a recente República fazia sair um decreto-lei, de 12 de Junho de 1910, que estipulava os feriados nacionais. Neste decreto, para além de se abolir a maior parte dos feriados de cariz religioso, laicizar a Sociedade era um objectivo primordial, permitiu-se que os municípios e os concelhos pudessem escolher um dia que representasse as suas festas tradicionais e municipais.
É neste contexto, que surge o feriado de 10 de Junho, como um feriado estritamente municipal, uma vez que resultou da escolha da cidade de Lisboa.
Mais tarde, já em pleno Estado Novo, a sua comemoração alarga-se a todo o país, tornando-o um feriado nacional, “O Dia de Camões”, também apelidado da “Raça”.
O simbolismo, representado pela figura camoniana, enaltecia os ideais nacionalistas e imperalistas e contribuía para a comemoração colectiva histórica, como modo de propagandear o regime.
Com a revolução do 25 de Abril de 1974, manteve-se o feriado, alterou-se a ideologia que o sustentava. A partir de então, passou a denominar-se Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Imune às conturbações dos homens que passaram pela História e fizeram a História, e independentemente das ideologias de poder, Luís de Camões permanecerá como um símbolo de um país que se quer letrado, reflexivo, activo, participativo e íntegro!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Poema

SEM TI

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
Ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O busilis da questão

"Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito."

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Caminhada


Gosto de caminhar. De preferência na serenidade da noite, com a aragem por companhia. Os movimentos compassados, que cansam o corpo, ajudam-me a reordenar o pensamento em monólogos incisivos: As ideias fluem, inspiradas pela cadência dos passos.
Caminhar ajuda-me a reorganizar as ideias, a reflectir, a decidir.
Na mansidão da noite busco o sossego necessário à reflexão. Caminho!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Porto de Abrigo


Pensamento de final de dia
A vida esvazia-se, esgota-se de importância e beleza se não tiver, no percurso que se trilha no dia-a-dia, a existência de momentos pessoais únicos, ilhas paradisíacas na trama social, um porto de abrigo seguro e de confiança, no qual se possa, no final de um dia intenso de trabalho, em que múltiplas relações se estabelecem e se cruzam nos mais diversos contextos, aportar, guiados por um vento de feição, num mar de calmaria com a certeza da bonança por companhia, emoldurado por um sol lindo de raios brilhantes e luminosos.
Cada qual terá o seu porto de abrigo, o meu, hoje, permitiu-me alcançar a plenitude na paz interior, desfrutar de um bem-estar físico e psicológico assente na serenidade, na calma, na tranquilidade, na partilha e, sobretudo, no dar e receber.
E como sabe bem um abraço amigo, forte, apertado, sem necessidade do recurso à palavra. O gesto, apenas o gesto acompanhado de um olhar e o diálogo estabelece-se, as “feridas” saram e a magia acontece e, de repente, tudo ganha mais brilho, mais sentido e a sensação de uma segurança que nos dá força para continuar a lutar, não desistir e prosseguir o sonho imaginado, pensado, desejado e, pela vontade, ser concretizado.
É o porto de abrigo protector que acolhe, na sua baía de águas calmas, resguardadas das tempestades, as tempestades da vida que nos enfraquecem e quase derrubam.
E nada mais reconfortante e reparador do que terminar o dia, deslizando suavemente, nas águas serenas de uma enseada sublime, paisagem paradisíaca, no meu porto de abrigo calmo, espelho da tranquilidade que se deseja.

sábado, 29 de maio de 2010

Palavras

Palavras: pequenas, longas, agradáveis, mortais! A força que traduzem é forjada na essência que as forma!
Palavras com alma, mas rosto também! A face de uma palavra é o som que se solta quando entoada, a sua alma é a génese do sentido, a dualidade no significado.
Há palavras lindas, adocicadas, que despertam empatia, outras taciturnas, negras como breu, que entristecem, amargam, gravam-se na memória, pela mágoa provocada!
Há palavras doces, ternas, que fascinam, deslumbram, são palavras de alma grande e face bela!
E há também aquelas que sorriem, em sorrisos contagiantes, rasgados, apetecidos, em rostos alegres.
Mas as mais perigosas são as que tapam a face, esvaziam a alma, mascaram as intenções dos que as falam!
Com as palavras amamos, partimos, saudamos, afastamos.
Com as palavras mudamos, lutamos, mostramos.
Com as palavras podemos, alcançamos, desafiamos,
Com as palavras argumentamos, decidimos, renovamos.
Recomeçamos!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Recantos

Num compasso de espera obrigatório, deambulei pela “minha” cidade, redescobrindo a beleza do antigo, ofuscado pelo véu da modernidade.
Remetidas ao esquecimento, calcorreei vielas, ruelas e betesgas repletas de vazios e silêncios, envelhecidas pelo tempo e nele paradas! Fascinou-me a rusticidade das suas formas, o pitoresco dos ambientes, esquecidas no meio de uma outra cidade, moderna e atípica.
A azáfama de outrora, na efervescência quotidiana da vida, cedeu o lugar à calmaria resignada da velhice.
Afundada, no pensamento, caminho, ao acaso, em busca de um lugar de paragem, esperando, pacientemente, pelo movimento dos ponteiros do relógio que parecem emperrados pelo verdete do tempo.
De repente, surge, descubro-a! Encoberta, pelo traçado arquitectónico de uma época passada, uma tasquinha, de ar simples e humilde, surge à minha frente: entro, perante a curiosidade de olhares rotineiros, pouco habituados ao desconhecido.
Sem qualquer esforço, depressa, imbuo-me no espaço ambiente: pequeno e sem pretensões, retrato fiel da calma e tranquilidade de quem o dirige!
Os aromas, que pairam no ar, aguçam-me o apetite e os sabores de uns petiscos caseiros saciam-me a fome. Rendo-me!
O tempo passou a correr. A obrigatoriedade, do que me aguarda, desperta-me para a necessidade da partida. Saio.
Na vontade, gravo a certeza do regresso.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um pensamento

Hoje engoli um pensamento: um daqueles exclamativos, interrogativos, imperativos, até!
Não é que eu goste, particularmente, do sabor que deixam, na alma, ao serem tragados pela decisão, mas há contextos em que a melhor resposta é sem dúvida o silêncio das palavras não ditas.
Sim, porque mesmo para as palavras há momentos certos, momentos em que estas emprenham-se de sentidos e desferem golpes certeiros na semântica da comunicação!
O pensamento que hoje engoli era cinzento, desmaiado na intensidade dos afectos, talvez por isso não me tenha saciado a fome da acção!
Por entre a rotina apressada, digeri um pensamento! Esvaziei-o!
Remeti-o para o esquecimento!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

" O Mostrengo"

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»
in, MENSAGEM de Fernando Pessoa-
Segunda Parte: Mar Portuguez
- O Mostrengo


Chegaste de olhar precavido, de ser magoado pelas agruras da vida.
Surgiste do nada: a noção temporal da lembrança perde-se na memória esquecida da desatenção.
Soube-te, antes de te conhecer.
E "o mostrengo, que estava no fim do mar", era apenas um ser que queria amar!