Translate

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O desafio


A leitura do romance “A verdade sobre o caso Harry Quebert” prossegue a um ritmo alucinante. A trama é bastante empolgante, diria mesmo viciante e que maneira de escrever tão diferente do habitual! Joel Dicker é, sem dúvida, uma agradável revelação.
Depois de a vida adormecer e do silêncio imperar, - condição essencial para o que o raciocínio lógico-dedutivo se desenvolva- enfio-me no quentinho acolhedor da cama, puxo do livro e embrenho-me na sua leitura. Página após página, a dúvida persiste: quem terá matado Nora Kellergan e porquê?
A minha faceta detectivesca, espicaçada pelo desafio da descoberta da verdade sobre o que terá acontecido naquele misterioso dia 30 de Agosto de 1975, desperta para a história num duelo entre a evidência dos factos narrados pelo autor e a minha capacidade de antecipar os acontecimentos, até chegar ao que, verdadeiramente, se passou, antes de o livro o revelar.
É este “passar a perna” ao autor, o deduzir, o intuir antes que ele se decida a desvendar o enigma ao leitor, que me alicia, há já muito tempo, para este género literário, misto de mistério, suspense e policial.
Eu vou descobrir…




quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Recomeço


Primeiro dia de mais um ano que não se avizinha fácil.
Em termos de tempo, este começou choroso: um pinga lágrimas, piegas e sorumbático! Nem convida a pôr um pezinho na rua para se saudar o seu início. Está-se bem é no aconchego do lar.
Pessoalmente, iniciei a leitura do tão publicitado romance “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Como diriam os meus alunos: “tantas páginas com letras pequeninas”, um calhamaço de tirar o fôlego para quem não lidar muito bem com a leitura. O início promete…
Para além disso, decidi elaborar uma lista de intenções para 2014, (a tomar ou não tomar, no fundo outra forma de tomar) que pretendo realizar em cada dia vivido, porque a vida não é mais do que um dia de cada vez – o velhinho ano que ontem se despediu, confirmou-o, no seu decorrer, da maneira mais dura, triste e inesperada - e, para não a remeter ao esquecimento, vou afixá-la, num lugar bem visível, para não me poder desculpar.
Aos poucos, as rotinas instalam-se perdendo de vista a quadra que se viveu.
Agora, na contagem decrescente para o reinício, há que aproveitar mais uns diazinhos de descanso e começar a preparar o novo período que se apresenta.
Bom ano para todos!


INTENÇÕES PARA 2014
(IMPORTANTE NÃO ESQUECER E PRATICAR)
1ª Nunca desistir de procurar ser feliz (por mais tristezas que nos rodeiem e nos queiram incutir);
2ª Nunca esperar muito dos outros, pois assim o que se receber será sempre uma dádiva;
3ª Colocar as expectativas sempre no campo do possível, para não haver grandes desilusões;
4ª Não esquecer que somos humanos e que errar é humano;
5ª Lembrar que não se sendo perfeito, se pode e se deve tentar melhorar;
6ª Nunca adiar o que quer que seja, nem enfiar a cabeça na areia, como a avestruz ;
7ª Viver cada dia como se fosse o último, com paixão em tudo o que se faz;
8ª Nunca esquecer que somos sempre importantes para alguém;
9ª No final de cada dia, há que fazer um balanço;
10ª Iluminar o dia (uma palavra, uma visita, um miminho) dos que perderam a autonomia e a liberdade e nos são queridos;
11ª Lembrar que um dia podemos estar nas mesmas condições, por isso viver a vida com intensidade, alegria e muita veracidade;
12ª Rodearmo-nos de quem nos faça sentir bem, de quem seja positivo e nos ajude a melhorar;
13ª Manter a calma, a serenidade e ver o lado positivo de tudo;
14ª Ser-se grato pelo que se tem;
15ª Lutar, com dignidade, para se alcançar o que se deseja;
16ª Nunca deixar de sonhar, nunca desistir;
17ª Rir, mas nunca dos outros, antes com os outros;
18ª Não lamentar, não lamuriar escusadamente, há quem esteja bem pior;
19ª Todas as que também são importantes, mas de momento não me ocorrem;
20ª Não esquecer as intenções formuladas e praticá-las.





sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A viagem







Ó Nuvem, leva-me contigo nessa viagem incessante de andarilha do tempo.
Existes desde o princípio de tudo, completas um sentido, és parte de uma resposta.

Companheira de viagem, espera por mim, no caminho do horizonte que trilhas, desde os tempos imemoráveis do mundo.
Invade-me, com a serenidade do teu movimento, com a leveza dos teus passos e leva-me contigo até lugares longínquos, desconhecidos, nos confins do mundo.
Quero vaguear, inspirar a liberdade que alcanças lá no alto, deslizando, de mansinho, sob a cúpula do que avistas quando passas, sem pressa nem destino.
És senhora do infinito que se abre e se estende à tua passagem.
Sim, quero ir contigo, deambular pelo céu, não pertencer a lado algum para ser parte do universo.

Nuvem, despercebida e silenciosa que observas a vida a saltitar a teus pés, viajante do mundo, em constante movimento, leva-me contigo, nessa viagem solitária.
Quero ser nuvem, ter um corpo leve e voar, voar e passar, passar.
Assim, como o poeta, também eu quero ver Granada, quero ver o mar, mas não sei voar…
Leva-me contigo, ó nuvem!





 


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A César o que é de César


  Hoje sinto-me mais leve, uma vez que a reunião da minha direção de turma já se realizou. A preocupação maior já passou, mas não algumas obrigações profissionais que terei de cumprir nesta breve interrupção lectiva.
Daqui a pouco vou, finalmente, montar o Presépio!
Por isso, dei uma vista de olhos, mais demorada, pela caixa de correio electrónico e atentei num email que me foi enviado, mais concretamente num determinado parágrafo! Mas antes, uma breve contextualização da ideia a desenvolver.
Como sabem, realizou-se, hoje, a prova de acesso à profissão docente para todos os que se encontram em situação de contratados, independentemente do número de anos de serviço que possuam. É uma falácia quando o ministro afirma que estão dispensados os professores com cinco ou mais anos, uma vez que se o espírito fosse esse, tal directiva tinha efeito imediato e não obrigava a que fossem os candidatos a ter de pedir a isenção da realização da prova, como aliás aconteceu.
Há relativamente pouco tempo, anulei a minha sindicalização daquele que foi o meu sindicato desde o primeiro ano de aulas. Fi-lo por um conjunto de razões díspares, mas também porque me comecei a não rever em determinadas tomadas de posição e/ou intervenções dos seus representantes. Continuo, no entanto, a considerar que é a estrutura sindical que mais defende os interesses da classe profissional a que pertenço. Esclarecido este ponto, entro directamente no assunto.
A propósito da greve ao serviço de vigilância à prova de acesso à profissão, de modo a impedir a realização da mesma - se o ministério considera ser aquele o género de prova que testa a capacidade dos candidatos a professores, enfim… -, uma vez que não concorda com ela, o meu ex sindicato emitiu uma nota à comunicação social dando conta do balanço do dia.
No parágrafo em causa, pode ler-se: De registar, negativamente, apesar de em baixo número, os docentes que abdicaram de afirmar a sua solidariedade para com os seus colegas sujeitos à prova e de defender a dignidade da sua profissão. Ao fazê-lo, poderão ter prestado um bom serviço ao governo e um mau serviço a toda uma classe, pondo-se, declaradamente, ao lado de Nuno Crato contra os seus colegas e contra si próprios. E foram estas palavras que me impulsionaram para a escrita deste texto, uma vez não concordar com a tomada de posição de quem as escreveu e critico-as.
Para tal, eis os meus argumentos: cada qual é livre de ter a sua opinião e de agir de acordo com ela; o facto de alguns professores não terem aderido à greve, não significa que estejam de acordo com a prova; os motivos de cada um não têm de ser questionados, já que vivemos numa sociedade democrática, que pugna pela liberdade de pensamento e de posicionamento; o sindicato deve preocupar-se em defender os interesses dos seus associados, fazendo sindicalismo e não imiscuir-se nos meandros da política, como se fosse um partido da oposição; esquece-se que os que não aderiram também são professores e não é, de todo, da sua competência ajudar a dividir o que já não tem muita união; ao escrever aquelas palavras passa para a opinião pública uma má imagem, não ajudando, em nada, a classe!
Por esta situação e por outras similares é que me afastei, demarquei e tomei a decisão de “rasgar o cartão”.
Esclareço desde já que, se a minha escola tivesse sido seleccionada para a realização da tal prova, hoje, teria feito greve, o que não acontece há já muitos anos pois, sinceramente, não me ia sentir nada bem no papel de vigilante de pessoas que são meus colegas.
Para isso, não contem comigo!




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A poesia





Praia da Tocha
foto de J.B.Aguiar Câmara


A poesia não vive apenas nas palavras!
Quando esta brota naturalmente, então os olhos captam a realidade de um outro prisma, despercebido à maioria das pessoas que abandonou o poeta que abriga em si.
A poesia repousa, também, na música que se compõe, na dança que se executa ou mesmo nos silêncios que se abraçam, porque poesia é criação, é amor, é entrega, é paixão ao que se quer, ao que se faz, com prazer, com devoção.
A poesia solta-se no ar e liberta-se do poeta, porque a poesia é de todos, é do mundo, é pertença de ninguém!
Levada pelo vento, percorre o infinito dos sentidos, desnuda os sonhos adormecidos da alma e torna possível o maior dos impossíveis, porque a poesia é querer, é poder, é a descoberta da verdade escondida na subtileza do ser-se.
Poesia é perder o olhar na imensidão do horizonte, é alcançar o inalcançável permanecendo, ali, entre o tudo e o nada, é esculpir, no sossego dos silêncios,  momentos procurados para, por fim, ser cantada ou apenas murmurada.
Poesia seremos tu e eu, seres de luz e de esperança,  nas manhãs cálidas de Outono, na paz que nos entrelaça e serena, no eco perdido dos risos, nas lágrimas salgadas dos sonhos incertos!
A poesia é a essência do Criador no seu mais belo poema de amor: o da Criação!




 
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Transparência


Estava eu muito quieta e sossegadinha, preparando a reunião da minha direcção de turma, quando sou surpreendida pelo toque estridente do tlm. Do outro lado, alguém que há muito não ouvia e, confesso, não esperava, de todo, ouvir.
Digamos que foi um Domingo surpreendente e veio demonstrar que nada na vida é definitivo e certo: existem palavras que deveriam ser proibidas de se colarem a determinadas intenções .
Tal como o título de um dos filmes do agente secreto mais conhecido do mundo, James Bond, “Never Say Never Again”!
A vida é muito mais sábia do que nós e, quando menos esperamos, demonstra-nos o quão ínfimos somos perante o universo a que pertencemos!
Inúmeros são os percursos que ainda temos que trilhar para compreendermos o que, sendo transparente como um cristal, dos mais puro e fino, distraidamente ou teimosamente não vemos, não percebemos ou não estamos, ainda, preparados para entender!
Tanto para aprender: cair, erguer, caminhar, na demanda que não termina nunca!





sábado, 14 de dezembro de 2013

Bailado perfeito


Hoje, a minha faneca (termo utilizado pelo pai que encerrava em si todo o carinho e amor que por ela sentia) participa, com o restante grupo da Secção de Patinagem Artística da Associação Académica de Coimbra, numa apresentação em três localidades diferentes, da Região Centro.
A crise que se vive por todo o país, há muito que chegou a esta Associação Académica.
No campo do desporto, as várias modalidades amadoras só sobrevivem graças ao empenho e boa vontade dos pais e encarregados de educação. São eles que suportam todos os encargos, entenda-se despesas, sem qualquer ajuda por parte do clube em que os filhos/educandos estão filiados, quando participam nas variadas provas em que defendem o nome da instituição desportiva a que pertencem.
A participação em cada apresentação implica muitas despesas: deslocação, por vezes a grandes distâncias, inscrição nas provas, alimentação, fato, adereços. Acreditem que não sai barato.
Ora, se os miúdos vão em representação do clube não seria natural esse mesmo clube contribuir, mesmo que simbolicamente, de algum modo?
Tudo se esquece e faz valer a pena quando iniciam as provas, patinando pelo recinto, numa leveza e numa beleza que enchem de orgulho qualquer pai.
Quando as vejo deslizar sobre os patins, recriando, em cada movimento, interpretações muito próprias, recordo-me sempre dos cisnes e dos pavões com a dança das suas plumagens, num bailado perfeito de cores, formas e movimentos exuberantes.
(E agora tenho de me retirar, pois vou vê-las actuar daqui a pouco).

 





sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sopa de coentros ou um cheirinho a Alentejo


A sugestão, de hoje, do Chefe Tiger, no Expresso, baseia-se numa açorda de mar, de fácil, barata e rápida confecção e deliciosa – acrescento eu -, um pitéu para os sentidos.
Enquanto lia a receita, apresentada sobre belíssimas imagens e acompanhada de uma música de fundo que nos transporta para as profundezas do mar, para a tranquilidade do espírito, verifiquei que esta açorda do mar é parecidíssima com a sopa de coentros que costumo cozinhar, muitas vezes, durante o Verão. Por isso mesmo, sem nunca ter provado esta açorda, aqui, apresentada, posso garantir que é uma delícia. Como alguém dizia” que admiração, com ingredientes tão saborosos e tão bons, difícil era não o ser". 
A minha sopa de coentros também é rápida de fazer, simples, barata, saborosa e muito mais económica!
Para quem quiser experimentar deixo a receita:

Ingredientes:
Vários dentes de alho, um bom molho de coentros – de preferência biológicos -, sal, azeite, água, broa e ovos.   

Confecção:
Parte-se o pão em nacos. Descascam-se os dentes de alho. Lavam-se os coentros, separam-se as folhas do caule e coloca-se tudo num almofariz com um punhado de sal. Tritura-se tudo até se obter uma pasta sumarenta e uniforme.
Ferve-se uma boa quantidade de água (o equivalente a três, quatro conchas grandes por pessoa) à qual se adiciona a mistura acima obtida, os nacos de broa e um fio de azeite. Servem-se os pratos e põe-se os ovos escalfados em cima.
Depois, é saber apreciar os diferentes sabores e deixar-se inebriar pelos variados aromas a lembrarem o Alentejo.





 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Mais um Natal


Hoje, poderia escrever sobre muitos assuntos que fizeram notícia, tal foi a abundância de acontecimentos, aqui e por esse mundo fora. Podia, mas preferi cinzelar este fim de dia em palavras banais que me distraem do trabalho.
Há pouco, eu e a minha faneca acabámos de montar a árvore de Natal: iluminada, repleta de enfeites, a lembrar a quadra que se aproxima.
Com o frio intenso que a todos enregela e que se estende pelo país, só falta mesmo um manto de neve, branca e fofa, para completar o Natal ideal, aquele que já vem da infância. A neve e uma aconchegante lareira para pendurar as meias, prontas a receberem os presentes que há já algum tempo se transformaram em chocolates docinhos e saborosos.
Agora, para que a tradição se cumpra, só falta construir o presépio. As peças já desceram da arrecadação e aguardam o seu momento para se mostrarem. Talvez hoje ou amanhã…
Mais um Natal!





domingo, 8 de dezembro de 2013

O V(erde) da Vitória


Hoje joga o meu Sporting. É uma oportunidade única que há muito não alcançamos: o de podermos ascender ao primeiro lugar- ISOLADOS- na tabela classificativa da Liga Zon Sagres.
Para os adeptos dos outros dois grandes, provavelmente, se a situação fosse com eles, não significaria muito. Porém, para nós, que vimos de lonnnnnnngossssssssssss anos de desaires, falhanços, derrotas e tristezas, é um grande feito o que temos estado a conseguir, o que temos evidenciado, até onde já chegámos!
Dizem-nos que temos uma equipa jovem, inexperiente, que não passamos do Natal, que é fogo-de-vista fugaz. Dizem…
Por mim,  podem afirmar o que quiserem, o que me interessa é que estamos a conseguir dar a volta, a afirmarmo-nos, a afastarmo-nos daquele Sporting de um passado bem recente.
Independentemente do resultado de hoje – claro que torço por uma vitória e desejo ultrapassar os nossos adversários que nos olham pelo ombro - por tudo o que temos realizado e tendo em conta o patamar de onde partimos, somos já uns vencedores, mesmo que não vençamos (precavi-me, com os nós dos deditos na madeira, conforme costume popular, não vá o diabo tecê-las…!)
Aguardemos pela hora do jogo!

(Em tom de curiosidade: se empatarmos, os três da frente ( Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sport Lisboa e Benfica) não se podem rir uns dos outros.
Ora então, verifiquem lá... 




 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Madiba

Foto de José Botelho Aguiar Câmara

 
"Não há paixão quando nos conformamos com uma vida que é menos do que aquilo de que somos capazes"
Nelson Mandela

 “e nos limitamos a acrescentar dias à nossa existência, sem outro objectivo que não mantermo-nos vivos por mais um dia."
 J.M B. Aguiar Câmara
 
 
 
 
 




 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Momentos


Desejava eu ter ficado no sossego aconchegante de casa, enroscada no sofá, a assistir à fúria da Natureza, à zanga entre o vento e a chuva!
Que discutissem entre si, que barafustassem e se desentendessem desde que não me incluíssem nas suas confusões. Eu queria, mas não passou de um mero desejo.
Logo de manhã, mal o sol acordou – tão envergonhado que nem se destapou, escondido debaixo do atapetado de nuvens que o cobriam –, a negritude do horizonte prometia um dilúvio que acabou por desabar, mesmo em cima de mim, já quase a chegar à estação.
Em situações destas, não há chapéus-de-chuva que impeçam quem quer que seja de se livrar de uma enorme molha, de uma fenomenal encharcadela, de ficar ensopado “até ao tutano”.
Já no comboio, a caminho da escola e torcendo para que o tempo se aguentasse até lá chegar, recordei uma outra ocasião em que a chuva, fustigada de vento e trovoada, era tão intensa, era tão indomável, era tão bravia, que me inundou por completo e fiquei a escorrer água por todos os lados, mais parecia a personificação das Cataratas do Niágara!
Entre o ontem e o hoje, momentos únicos!





 

 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Equinócio


O equinócio passou completamente despercebido, disfarçado de Verão.
A tradição, se se cumprisse, obrigava a que a mudança de estação fosse acompanhada de temporal, ventos fortes e uivantes, marés vivas e muita chuva. Mas não! Usando um cliché, a tradição já não é o que era!
A poluição, principal responsável pelo não cumprimento da tal tradição- meteorológica - alterou por completo o estado do tempo que seria habitual nesta altura.
Já Sophia de Mello Breyner e Andersen, no seu livro “A Menina do Mar”, retrata, em termos literários e melhor do que ninguém, as alterações que a entrada no Outono costumava provocar em termos meteorológicos.
Desde pequena que me lembro do meu pai, nas amenas conversas, características dos jantares em família, nos falar da tipicidade que a posição da Terra, em relação ao Sol, neste período do ano, trazia e as consequências que ela provocava em termos de estados de tempo.
Este ano, com um ligeiro atraso relativamente ao que é habitual, o mau tempo, prelúdio do Inverno que aguarda, vai-se fazer sentir, em cores graduées, algures entre os alertas  amarelo, laranja e vermelho.
O ideal seria poder ficar em casa, enroscada no sofá, a observar as gotículas de água escorrerem pelas vidraças das janelas, ignorar os lamentos do vento, não valorizar as lágrimas da chuva e permanecer num sossego aconchegante, esquecendo o mau humor do tempo.
Seria… Se não tivesse de ir trabalhar!




 

domingo, 22 de setembro de 2013

Enfoque


Lembro-me, há uns bons anos atrás, quando tinha cerca de doze anos, as entusiasmadas conversas que se estendiam pelos serões dentro, durante o tempo de férias, entre mim e os meus amigos, vizinhos da mesma idade, sobre um tema que nos prendia a atenção e seduzia: OVNIS.
Na altura, vivíamos perto de Sintra, numa zona de construção nova, repleta de vivendas, numa rua sem saída. Aquele foi o meu mundo durante muito tempo. Ali, construí amizades, cresci, aprendi e parti para a vida.
A planta da minha rua assemelhava-a a um pequeno lugarejo, onde todos se conheciam, se davam e entreajudavam. Solidariedade e controlo social, as duas faces da mesma realidade.
Principalmente, no Verão, depois de terminado o ano lectivo, os dias e as noites eram todos nossos: andar de bicicleta, ouvir música, jogar, conversar… As brincadeiras nunca se esgotavam e nós nunca nos cansávamos.
Entre o quintal e a rua – extensão natural do espaço exterior da casa de cada um – era um ir e vir constante que nos animava, divertia, ocupava e, frequentemente, exasperava as nossas mães.
Depois do jantar, enquanto os pais conviviam, em conversas de adultos que nada nos diziam, juntávamo-nos no nosso espaço, território comum a todos e conversávamos, influenciados pelos mistérios da noite, pelo silêncio da Natureza adormecida, pela beleza de um céu, ora escuro, incrustado de pontinhos cintilantes, parecendo pequenos diamantes reluzentes, ora iluminado por uma esplendorosa lua, cheia, magnífica e prateada que a todos inspirava.
Nesses momentos únicos, sob a negritude do céu, enquanto o olhar acompanhava as conversas, perscrutando o horizonte imenso e infinito, gastávamos as palavras, enredávamo-nos nas ideias, conspirávamos em sussurro e falávamos de OVNIS.
Cada um de nós acreditava na sua existência. Cada um de nós ansiava, numa íntima e secreta esperança, conseguir, um dia, vislumbrar um desses objectos e fazer parte do grupo de pessoas que afiançava tê-los avistado.
Nessas noites de convívio e depois, já a sós, recolhidos no quarto, debruçados na janela, enquanto o sono não vinha, entre pensamentos e sonhos de adolescentes, observávamos o firmamento, focávamos a atenção nas estrelas, nas constelações, perdíamo-nos na magnitude da criação que parecia mesmo conspirar contra nós, ao não partilhar o nosso entusiasmo.
Os anos passaram: crescemos, partimos, abraçámos a vida, seguimos rumos distintos e, naturalmente, os interesses mudaram. Os OVNIS tornaram-se parte de recordações de um tempo feliz, despreocupado e alegremente vivido.
Na madrugada de ontem, observando a plenitude de um céu em tons de escuro, enfeitado pelas luzes cintilantes das estrelas, vi, deslizando bem lá no alto, tão distantes como as estrelas imóveis, dois objectos de forma invulgar, quase despercebidos ao olhar, que se movimentavam, lado a lado, a uma velocidade que me pareceu enorme, dado o tempo que permaneceram no meu campo visual.
Fiquei ali, de olhar fixo no firmamento, acompanhando a direcção do movimento, surpreendida, extasiada, cheia de dúvidas, sem nenhuma certeza e avivando memórias daquele tempo passado.


sábado, 21 de setembro de 2013

Sapiência


José Sócrates, após cerca de dois anos de intensa e dedicada entrega ao estudo, na cidade luz, terminou a sua tese de mestrado subordinada ao tema “Tortura nos Países Democráticos”.
O assunto da sua dissertação não foi mal escolhido. Afinal não foi ela (a tortura) uma constante da sua governação? Quanta tortura psicológica não infligiu com algumas das suas decisões políticas, consubstanciadas em forma de lei, cujos efeitos ainda, hoje, se fazem sentir? 
Por tudo isto não duvido da qualidade do trabalho e sua defesa.
Mas como José Sócrates é uma pessoa ambiciosa, não me admira nada que, num futuro próximo, não invista no doutoramento. Nesse caso sugiro-lhe o seguinte tema: “Como falir um país em três actos: ascensão, manutenção e declínio de um político”.
Doutorar-se-á com louvor e distinção!