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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Ausência


Muito, muito de fugida, empurrada pela pressa, dou um salto ao blog. Reparo na data do meu último texto e apercebo-me de que há já uns dias que não passava por aqui.
Quase sempre esta ausência é prenúncio de falta de tempo, de avalanche de trabalho que determinados momentos específicos do ano impõem.
Mesmo condicionada pelos afazeres, enregelada pelo frio que voltou e cansada de um dia compridíssimo, não resisti à tentadora provocação de dar aqui um pulito e cinzelar a minha fugaz presença nas palavras que escrevi.




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Em jeito de brincadeira


Não tenho por norma postar, neste meu espaço, textos que não sejam da minha autoria.
No entanto, como a excepção confirma a regra, hoje, decidi colocar um texto pensado, trabalhado e concretizado por três jovens do 9º ano.
O texto resultou da proposta lançada pela professora de Português – imaginarem uma cena passada no presente, semelhante às estudadas no “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente, com duas personagens sobejamente conhecidas de todos.
 Partilho-o porque o manuscrito, para além de bem redigido, denota um sentido crítico, cheio de humor e sátira.
Ligeiramente extenso, não deixa de ser uma leitura deliciosa, sorridente e bem-disposta.

 “ (Chega o Dr. Relvas que, exibindo o seu diploma da Lusófona, se dirige, de imediato, à Barca do Inferno)
Diabo: Dr. Relvas, já por aqui?
Relvas: Pois, parece que sim…
Diabo: Foste rápido!
Relvas: Para onde se dirige esta barca?
Diabo: Entrai, entrai que a morada não é falsa!
Relvas: E que sabes tu disso?
Diabo: Não estejas com mais conversas que é este o teu destino.
(Enquanto as duas personagens discutem, surge, inesperadamente, um vulto com a face oculta, transportando, debaixo do braço um Magalhães).
Sócrates: Ó da barca!
Relvas: Ah, és tu, nem te estava a conhecer!
Diabo: Só faltava cá este…
Relvas: Ó meu fiel companheiro, chegaste rápido!
Sócrates: Vim de TGV já que o aeroporto de Beja foi encerrado.
Relvas: Sempre tiveste a mania das grandezas…
Diabo: Chega de conversa fiada, entrai!
Sócrates: No.
Diabo: Yes.
Sócrates: Bem me parecia que te conhecia de algum lado. Por acaso não nos teremos cruzado no exame de Inglês Técnico na Independente?
Diabo: Impossível, ao domingo descanso…
Relvas: Não lhe dês mais conversa, vamos mas é para o paraíso que já lá temos lugar marcado.
(As duas personagens dirigem-se para a Barca do Anjo).
Sócrates: Tu aí, deixai-nos entrar!
Anjo: E por que haveria eu de o fazer?
Sócrates: Somos homens de bem.
Anjo: E pensais tu que endividar o país é um ato de bem?
Sócrates: Eu sempre quis fazer de Portugal um país pobre, (engasgando-se) perdão, mais rico!
Anjo: Neste batel divinal não embarca tirania.
Relvas: Olhai para o que trazemos!
(Relvas e Sócrates exibem um Diploma e um Magalhães).
Anjo: Esses símbolos que trazeis, aqui, não vos servem de nada.
Relvas: Como sabes tu isso, se ainda nem o meu diploma viste?
Anjo: Não vale a pena. No Céu, não se dão equivalências.
Sócrates: Olha lá, Anjo, dá-me um freepass para entrar na tua barca.
Anjo: Não te chegou o Freeport? Ide embora que aqui não tendes lugar!
(Percebendo que não tinham outra opção, os dois dirigem-se para o Batel Infernal. Prestes a embarcarem…)
Sócrates: Ó Relvas, como é que entro melhor: assim, com o pé direito ou assim, com o pé esquerdo?





terça-feira, 27 de novembro de 2012

Subjectividade


Existem certas alturas do ano – lectivo, entenda-se - bastante críticas e condensadas: os finais de período, com os testes para corrigir e a preparação da reunião da direcção de turma para iniciar.
Nestes momentos específicos, o tempo parece variar na razão inversa do volume de trabalho.
Hoje, por entre a correcção de um e outro teste, ia imaginando, sonhando, divagando com uma época em que os professores teriam acesso a máquinas inteligentes que corrigiriam e cotariam, em fracções de segundos, os testes de uma turma inteira.
Ó que deliciosa imagem, acompanhada de um sorriso grato!…
Ainda a evocava e logo se desvaneceu, porque me lembrei das irritantes maquinetas instaladas nas portagens das auto-estradas que substituíram, dispensaram e lançaram para o desemprego mais uns quantos trabalhadores.
Com a necessidade do Estado cortar nas despesas, Vítor Gaspar, o nosso Ministro das Finanças, não desperdiçaria nem perderia a oportunidade de substituir uma parte da massa humana que forma o Ministério da Educação por inúmeras unidades de metal reluzente, cheias de chips, ligações e outras tantas invenções…
Ai que felicidade ter os testes para corrigir!

 

 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Inacabado


Estava eu aqui tranquila, por entre papéis e computador, saltitando de página em página - qualquer coisa do género “aquecimento para o trabalho” – cheia de vontade de produzir e… perdi-me nos pensamentos.
Com eles, vagueei. Pormenorizei detalhes que me houveram escapado.
 Alcancei o sentido de palavras ditas, algumas sussurradas e tantas outras, apenas, silenciadas.
Escutei os ecos do passado, disfarçados de penetrantes subtilezas.
Percebi, nas lembranças que afloram em sorrisos ternos, a fragilidade de sermos.
Galguei o pensamento, interpretei acções, legendei gestos feitos e desfeitos do que fiz ou deixei por fazer.
Sempre que me perco nos pensamentos, agitam-se águas ora calmas ora tempestuosas que me conduzem, inevitavelmente, ao ancoradouro de onde parti: o presente.




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Momentos


Hoje, talvez por causa do dia frio, cortado por um vento encharcado, lembrei-me de outros dias semelhantes, quando ainda andava na faculdade e, durante a semana, ficava em casa da minha avó em Lisboa.
Como era bom, nessa altura, quando saía das aulas, já noite escura, enregelada e molhada, saber que, à minha espera, teria a minha avó, com a sua imensa ternura e uns miminhos que só ela sabia dar, por isso de gosto único e inconfundível.
Sim, era uma doçura chegar a casa, de Inverno feito e, na penumbra do dia, eu e ela, aquecermo-nos com uma boa chávena de chá a fumegar e deliciarmo-nos com umas apetitosas torradas a escorrerem manteiga que preparara para nós.
A sua presença transmitia-me uma segurança, uma tranquilidade, um conforto que só mais tarde percebi, quando o efeito da dormência da sua ausência, aos poucos, foi desaparecendo.
Era bom enroscar-me no carinho e nos mimos da minha avó.
Foi bom esse tempo repleto de amor, compreensão e muita abnegação.  
Sim, hoje, este dia cinzento, varrido pela chuva ininterrupta e enfriado pelo vento que se soltou das vertentes da serra e desceu até à cidade, trouxe-me a sua memória.
Lembrando esses tempos, eternizados porque repetidos, enrosquei-me nos meus filhos, partilhei momentos nossos: o chá foi substituído pelo leite, mas as torradas quentinhas a escorrerem manteiga e o sabor genuíno do momento perduraram.
Um dia, também eles repetirão, com quem ainda não é, histórias, vivências, gestos, afectos, quereres e sentires.
Um dia, também eles se enroscarão em quem sendo, ainda não é, e lembrar-se-ão destes momentos, imortalizando-os.
É a vida a acontecer!




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fim de noite


Mais uma noite que desponta: serena, tranquila, pacífica.
Finalmente, abraço aquele momento do dia que é só meu. Saboreio-o sem pressa, prolongando a sensação de bem-estar que busco nele.
Sempre fui uma noctívaga.
Agora que o dia adormece e me obriga a deitar com ele, é que eu irrompia pela madrugada adentro, inspirando-me na companhia da música, da escrita e dos meus pensamentos.
Deixem-me estar! Não me perturbem! Preciso deste bocadinho de tempo para reflectir, repensar a caminhada do dia que finda e preparar o percurso que se inicia em cada nova alvorada.
Neste momento só meu, cabem todos os sentimentos, todas as lembranças, todos os projectos, alguns, eternamente, projectos e, essencialmente, a voz da razão, maturada pela experiência de vida. É ela que me faz perceber quão ténue ou distante pode ser a fronteira que separa o querer do poder.
Que venha então a noite, que desça sobre mim, me cubra com o seu manto lúcido e aconchegante e me envolva nos seus longos braços, sábios e conselheiros.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Bizarrices ou talvez não


Hoje, divagarei ao sabor de algumas notícias que retive ao longo do dia. Talvez pelas bizarrices que encerrassem me tenham soado mais forte e as recorde agora.
Logo de manhã, a Antena 1 proclamava, em tom crítico, que nem com Vercauteren o Sporting conseguia quebrar este tsunami de adversidade que parece inundar Alvalade e, por fim vencer um jogo. Nem uma semana como treinador o senhor ainda tem e já queriam milagres? É, no mínimo, surreal.
De seguida, alguém, ligado a uma associação relacionada com os sargentos das Forças Armadas, mostrava a sua indignação pelo facto dos militares deixarem de ter isenção – eu diria antes descontos - nos transportes públicos.
Pergunto: mas por que razão sempre o tiveram? Não são cidadãos como todos os outros?
Portugal é um país estruturalmente débil para tantas mordomias e benesses incompreensíveis.
Entretanto, de madrugada, enquanto dormirmos, os americanos decidem sobre o destino da sua nação com a eleição do Presidente.
O processo eleitoral no “Novo Mundo” diverge do utilizado no nosso país. É caso para dizer “Complicados estes americanos! “
Com o colégio eleitoral ou com o voto directo, os meus sonhos, antevêem uma vitória – suada, renhida - do candidato Obama, ainda mais, agora que o nosso CR7 lhe manifestou, publicamente, o seu apoio!
De divagação em divagação, consigo imaginar o ar estupefacto com que terão ficado os larápios que roubaram uma carrinha funerária com “brinde” dentro.
E que reflectir do sentido fraterno do pároco de Travanca ao dispensar um catequista por este tossir muito?
Meras notícias de um dia normalíssimo em pleno século XXI.

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Como uma bola de neve


Por entre umas peripécias de final de dia, ia ouvindo as últimas notícias sobre a política nacional.
O orçamento foi entregue e com ele fica a certeza de que para o ano as coisas vão piorar, substancialmente, para cada um dos portugueses que vive neste pequeno quase rectângulo.
Sinceramente, não vislumbro solução nas medidas tomadas. Pelo contrário, parece-me que nos vamos enterrar mais e mais e mais e enredarmo-nos no nosso desespero.
Como eu gostaria de estar equivocada e, daqui a um ano, poder reler este texto e concluir que, afinal, estava enganada nos juízos que fizera e que os especialistas na governação do meu país tiveram visão e tomaram as medidas acertadas contra tudo e contra todos.



domingo, 14 de outubro de 2012

In extremis


O amor, independentemente das diversas formas que tome, é, sem dúvida, uma fonte de energia, positiva, que dá carácter às nossas acções, fortalecendo-as e suaviza o olhar com que encaramos o que nos circunda.
Sim, acredito que cada um de nós tem o poder de emanar tanto energias positivas como negativas, poder esse que, inevitavelmente, acaba por influenciar  quem e o que nos rodeia. Quer umas quer outras energias, quando extremadas, tornam-se avassaladoras, devastadoras até.
 Em ambos os casos há, sempre, um sentimento intensíssimo que as alimenta e as faz crescer, mas ao mesmo tempo – o contraponto em forma de ironia – impede o ser que as emana de se libertar e maturar-se como pessoa.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Metáfora


A comemoração oficial deste feriado, em Portugal, rodeou-se de um cómico de circunstância: a pompa cerimoniosa do hastear da bandeira teria sido igual a todas as anteriores, não fosse os protagonistas do acto terem-na colocado de cabeça para baixo.
O símbolo da República, solenemente, içado pela mão do seu legítimo representante, subiu com as quinas viradas ao contrário sem que ninguém dos protagonistas e dos convidados se ter apercebido do facto.
Ironia, das ironias, neste dia em que, pelo menos, nos próximos cinco anos, não se comemorará, oficialmente, a  Queda da Monarquia e a Implantação da República.
Foi, constrangedoramente, um momento repleto de metáforas!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Nuances

Lá fora, o chão, atapetado de folhas caídas, cobre-se de castanhos e amarelos a lembrar a chegada do Outono.
A chuva regressou, acompanhada de baixa de temperatura e de vento.
 É o Verão que se distancia em cada dia que passa, enquanto a Natureza se vai cobrindo de tons frios, preparando-se para o Inverno.
Em dias assim, em que o tempo negro e plangente parece chorar a tristeza da alma, apetece a partilha, o abrigo de um lugar quente, enroscar junto à lareira e aquecer um abraço, um olhar, um silêncio que se desfaz.
Em dias assim, tristonhos e fechados, reinventemo-nos.

domingo, 9 de setembro de 2012

Ilusão

As políticas económicas do Velho Mundo parecem ter chegado a um beco sem saída, principalmente para as economias mais debilitadas como é o caso da portuguesa e da grega.
Insistir, num modelo que se autodestrói, será a solução? Mas, então, qual é a solução? Que alternativas nos restam para diminuir o deficit que nos aprisiona, sufoca e nos torna moribundos? Como solucionar, em tão pouco tempo, os erros de anos consecutivos? Como resgatar sonhos, projectos, vidas adiadas, suspensas, desalentadas ?
Como banir esta tristeza que nos invade, esta preocupação que nos toma e consome?
É a tristeza de um país que se perdeu e não se consegue encontrar; de um país que se tornou vassalo, se escravizou, se deixou cegar por discursos ofuscantes que adornaram a realidade e esqueceram a verdade.
É a tristeza de constatar que, afinal, quase tudo foi apenas ilusão, uma mera sedução que nos cativou e perdeu.
Ainda há esperança?
Queria tanto acreditar!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Bisbilhotice

O Presidente do FCP, Jorge Nuno Pinto da Costa, de setenta e quatro anos de idade, casou-se, recentemente, com uma jovem, cinquenta anos mais nova que ele.
Esta manhã, foi operado ao coração.
É caso para dizer:" Ai Miranda, Miranda que o puseste de banda!"
Quem se mete em cavalgadas...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O poder das palavras

Na recta final de umas férias que passaram muito depressa e quase a iniciar mais um ano de trabalho, ainda resta tempo para terminar as leituras de verão.
Neste mês de férias li, com agrado, alguns bons livros, quer na forma quer no conteúdo, que me deleitaram e cativaram.
Com um sentido muito irónico e mordaz, numa crítica à sociedade actual e ao sistema político em particular, ri-me, deliciosamente, com a mestria que Francisco Moita Flores desenvolve, no seu  "A Opereta dos Vadios", a trama de um grupo de amigos que, a partir de uma ideia mirabolante e numa brincadeira contestatária, resolve boicotar o sistema político e, sem saber como, vê-se preste a vencer as eleições com o recente partido por eles criado: o PUM!
A escrita de Moita Flores tem esta particularidade: a brincar, a brincar, o autor aborda problemas bem actuais e sérios, mas com um sentido de humor contagiante que põe bem-disposto o leitor.

domingo, 26 de agosto de 2012

Despedida

Paulatinamente, os dias, com sabor a sol e terra, vão-se despedindo do Verão, muito de mansinho.
Os finais de tarde cobrem-se de nuances, pintalgadas de cores e aromas que me fazem lembrar Formilo. Como se o tempo, num compasso ilógico e intemporal, me resgatasse do presente e me pousasse num outro presente do passado.
Recuo nas memórias afectivas: intensas, imensas. Afundo-me na tranquilidade e no sossego apaziguador que as recordações me transmitem.
Mais um final de tarde que se desprende e explode em cheiros e cores: doces, agrestes, pintado de cor de laranja e amarelo.
Outrora e hoje, perco o olhar para lá do horizonte. Abandono-me à beleza de um final de dia, ao entardecer. Despeço-me.