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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Regresso ao passado


Já não nos bastava o buraco no BPN (muito mal tapado e à custa do erário público) e eis que surge logo outro de nome BES. Espero que desta vez não ousem sequer pensar em usar o Estado como escudo protector da má gerência de uns tantos. Já chega de cobrir buracos!
Como não há duas sem três, qual será a próxima instituição bancária a colapsar? Isto vai de mal a pior!
Um dia destes, com tanta buracada, perde-se de vez a confiança e adoptamos o velhinho método dos nossos antepassados: esconder o dinheiro (os que ainda o tiverem) debaixo do colchão. Talvez assim consigamos dormir, descansadamente, sobre este assunto!











 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Muito mais do que um jogo


 Ontem, a selecção alemã mostrou e demonstrou ao mundo o poder e a força do país a que pertence. Para muitos poderá ter sido um mero jogo de futebol, mas a verdade é que a essência que possibilitou o aniquilamento do Brasil, dentro das quatro linhas, representa o paradigma do poder de um país, no xadrez europeu e mundial, a nível económico, político e social.
O não simpatizar com a Deutschland, não implica que não reconheça as qualidades que fazem desta Nação e do seu povo, um dos colossos actuais da Europa: rigor, método, planeamento, disciplina, coordenação, eficácia, trabalho, são talvez as principais e responsáveis características do seu sucesso.
A capacidade que os germanos possuem de se organizarem e reorganizarem, renascerem das cinzas, qual Félix, da fraqueza fazerem força, é no mínimo surpreendente e a comprová-lo temos a História que o testemunha: lembremo-nos do que sucedeu ao território, após a 2ª Grande Guerra, a sua divisão em dois países ideologicamente distintos e opostos, numa tentativa dos países vencedores, encabeçados pelos Estados Unidos da América e pela URSS, enfraquecerem esta potência, deixando-a Knock-Out por muito tempo. A sua força anímica foi (e continua a ser) tão grande que nem o  que lhe aconteceu, após ter perdido a guerra, a derrubou.
A Alemanha, desde sempre, exerceu uma hegemonia que ainda perdura. Está-lhe na génese.
Por isso digo e repito que o que aconteceu no jogo com o Brasil (e anteriormente com Portugal) possui uma carga simbólica do tamanho da derrota que incutiram à selecção canarinha, simbologia esta que ultrapassa o Mundial, as quatro linhas e o futebol!
A Europa não se pode distrair, pois a Alemanha há muito que se descolou dos países da União a que pertence e tem-se vindo a tornar cada vez mais forte!










sábado, 5 de julho de 2014

Um triste engodo ou o retrato de um país sem soberania


Parece que o Ministério da Educação e Ciência, juntamente com a Secretaria de Estado da Administração Local e o Ministro-Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Poiares Maduro, pretendem, a curto e médio prazo, municipalizar as escolas com vista a retirar, do Poder Central, o ónus com a Educação e com os professores.
“Descentralização de competências” - afirmam os responsáveis pelo processo. Eu diria que o MEC (e o governo) quer é sacudir a água do capote e com esta ideia luminosa conseguir arrecadar mais alguns milhares ou milhões de euros, visando a diminuição do deficit nos próximos anos.
As particularidades da proposta de municipalização das escolas vão sendo conhecidas a conta-gotas (estratégia há muito utilizada pelos governos, do género matar, mas com suavidade).
Hoje, levantou-se um pouco mais o véu e soube-se que uma das novidades presentes na proposta é o chamado "factor de eficiência”, o qual pretende premiar as câmaras que trabalhem com um número de docentes inferior ao tido como necessário para o respectivo universo escolar (mas mantendo o sucesso, entenda-se).
Estes gajos (sim, é mesmo este o termo que quero utilizar para os nomear, um termo que pretende transmitir o meu sentir) tomam-nos como mentecaptos, cordeirinhos mansos que tudo acatam e nada contestam.
Se a maior parte dos municípios se encontra endividada, como é que alguns destes têm a veleidade de quererem chamar a si a responsabilidade de gerir a Educação nos agrupamentos de escolas da sua área de influência?
E o perigo da instrumentalização das escolas (e das pessoas) para fins políticos? Quem garante a imparcialidade e a correcção de critérios na contratação dos docentes? Como se pode acreditar nas melhores intenções para a Escola Pública, quando se acena com um bónus pomposamente apelidado de “factor de eficiência”? Alguém acredita nisto? Sinceramente, não!
Sei que o que nos espera é bem pior do que alguma vez supuséramos.
Sinto uma angústia do tamanho do engodo que me (nos) querem impingir!
Parece-me que o governo (ou antes a Troika? Saiu, mas as metas a atingir devem ter ficado bem definidas nas ordens dadas: cortar, cortar, cortar, a torto, a direito, não interessa como, desde que os objectivos sejam cumpridos! Têm-se revelado alunos exemplares e cumpridores das ordens do mestre, estes nossos governantes) está a querer enveredar por um caminho que vai destruir a qualidade, o bom nome e até a própria Escola Pública ( assim como o Estado Social, tal como o conhecemos).
Grande façanha! Nem os cinquenta anos de ditadura, com todo o obscurantismo e mentalidade retrógrada e fechada que o caracterizou, ousaram semelhante proeza!
Sinto uma enorme tristeza porque perdemos, definitivamente, a soberania. Somos uns meros fantoches nas mãos dos detentores do capital e os únicos interesses que importam são os económicos. Tudo o resto? É para abater, acabar, neutralizar!

“ Agora se vende Portugal, que tantas cabeças e sangue custou a ganhar quando foi tomado aos Mouros!”

Fernão Lopes, crónica de el-rei D. Fernando, século XV
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Aqui



Aqui, deposta enfim a minha imagem,

Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

 
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

 
Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

 
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dia do Mar"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Fragilidades


Desconheço o autor deste texto. À medida que o ia lendo, não conseguia deixar de pensar em Judite de Sousa, no sofrimento e na mágoa de uma mãe (de todas as mães) que vê (vêem) partir um filho (cedo de mais) - não deveria ser permitido, nas leis da existência.
Que o Senhor acalme a sua dor e lhe permita encontrar respostas nas incongruências da vida.



Sei que às vezes ris - bastante.
Mas nem sempre a vontade que está por fora é igual ao que se sente por dentro. Mas sei que ris, muito. E que tentas matar a tristeza com um sorriso. Acho que é assim que se matam as tristezas, com sorrisos. É isso que vejo em ti: um sorriso gigante por fora que amedronta a tristeza que vai por dentro, e é isso que faz sentido: em vez de nos deixarmos amedrontar com as tristezas, em vez de nos deixarmos cair, sorrimos. Às vezes, mesmo por entre lágrimas, sorrimos, e elas, com medo, vão-se embora (ou pelo menos afastam-se o suficiente para nos deixar sorrir).
As lágrimas têm um poder de lavagem da alma, penso que seja para isso que servem, saltam fora de nós para lavar o que nos entristece.
As lágrimas também dão alento, reconheço-lhes esse valor, dão força para o passo seguinte, às vezes só depois de chorarmos é que as luzes da vida se alumiam para vermos por onde temos de ir.
Quantas batalhas não se ganharam depois de um choro? Quantas forças não se reuniram depois de derramadas lágrimas? Quantos caminhos não se desvendaram depois de enxugarmos as lágrimas que nos cobriam os olhos? Quantas mães não fizeram das suas lágrimas forças para que o mundo continue a avançar? Como conheceríamos a bonança se não houvesse tempestade? Primeiro tudo revolto, e, depois a bonança, a calmaria, que nos deixa ver para onde vamos.
Deus não iria criar as lágrimas só para nos fazer tristes, se ele as criou foi para algo mais do que viver tristezas.
Afinal também existe felicidade no meio das lágrimas, não é verdade?
Chorar faz bem, quando chorar faz falta.
Sei que às vezes ris - bastante. Mas também sei que choras - quando precisas.

Autor desconhecido
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Por fim


Com a alteração das rotinas do trabalho, começa a haver tempo e espaço para dedicar àqueles gostinhos que nos deliciam e antecipam as férias.
Os momentos de lazer irrompem naturalmente, com destaque para a leitura: finalmente, vou terminar “Um Milionário em Lisboa” e renovar o acervo da mesinha de cabeceira.
Outro dia passei pela Bertrand (é sempre uma tentação e um gosto que vem de longe, do tempo de juventude, quando me perdia naquele espaço mágico, por entre a imensidão de livros que pareciam seguir os meus gestos na esperança de serem folheados e talvez lidos) – divagações – e adquiri alguns que vão, por ora, esperar pelo vagar dos dias.
Entretanto, aproveitando a ida à livraria, indaguei sobre um livro que, há muito, desejo ler: Cai o Pano - O Último Caso de Poirot. Aguardo a sua chegada. Será a cereja no topo do bolo!










sexta-feira, 27 de junho de 2014

Uma questão de táctica


Agora que o Mundial terminou para nós e depois de assistir ao último jogo com o Gana, deu-me umas ganas de pegar nas palavras e aparvoar com elas!
Enquanto via o jogo, por entre uns finos bem gelados, uns amendoins crocantes, uns falhanços de Cristiano e um público desesperado, eis que, de repente, tive uma ideia: por que é que Portugal não se candidata à organização do próximo Mundial de Futebol, em 2018?
As infra-estruturas já as temos: os estádios construídos para a realização do Euro 2004! Bem sei que muitos deles se tornaram uns autênticos fantasmas, pálidas imagens do esplendor da época, mas nada que uma boa pintura, um corte de ervas daninhas e um desalojamento temporário das luras não resolva.
Num gesto de “cortesia”, instalamos o quartel-general da selecção alemã num monte alentejano e a disputar os jogos lá bem para o Norte Interior. Com esta estratégia matamos dois coelhos de uma só cajadada: rentabilizamos o aeroporto de Beja – a pista deve estar perdida no meio do matagal invasor (mandamo-lo, também, limpar) - e desgastamos fisicamente os jogadores, com tantas viagens.  
Quanto a Portugal, a escolha do local de concentração será unânime: algures no Litoral Norte para que a suavidade do clima, influenciado pela proximidade do oceano, amenize os problemas musculares dos jogadores e lhes permita darem um saltito até à praia e mergulharem nas águas frias do Atlântico para enrijecerem aqueles músculos doridos – poupa-se no gelo – durante as folgas consentidas pelo seleccionador, enquanto este, do alto de um promontório, procura, na imensidão do mar que se estende à sua frente, a inspiração para a táctica perfeita, qual Infante D. Henrique do século XIX.
Com tanto mar a rodear-nos, ninguém se admirará quando metermos água!

(Adenda: a começar por mim, na escrita do século...É lógico que me referia ao século XXI e não XIX).








quinta-feira, 26 de junho de 2014

Milagre precisa-se


Se eu acredito em milagres? Acredito, mas para que a maior parte deles aconteça há que fazer a nossa parte: trabalhar, investir, persistir, esforçar.
Ou seja, Deus deve estar demasiado ocupado para perder o seu tempo e o poder divinal que o assiste com insignificâncias do mundo do futebol.
Para além disso, os princípios da imparcialidade e da confiança (já pareço os juízes do Tribunal Constitucional) impossibilitam uma intervenção do Altíssimo! Sim, porque não seremos só nós a esperar um milagre, eles também!
(Acabei de ouvir nas notícias que dois dos jogadores do Gana foram afastados da selecção e não jogam, parece haver conflitos.
Hum… Será que Deus também é  Leitor do meu blog?)










terça-feira, 24 de junho de 2014

Dégradé


Com a chegada do Verão, os dias desnudam-se, quentes, luminosos, em poentes intensos e harmoniosos, aromatizados pela brisa de final de tarde que espalha, ao seu passar, o bulício dos sentidos a despontar.
O Verão e as férias, o calor abrasador e as noites cálidas, enfeitadas de luares prateados, avivam lembranças ternas, edificadas em momentos alegres e risonhos de um outrora que passou muito depressa.
Formilo, sempre Formilo no centro das memórias: um retorno à imponência do casarão, à majestade da escadaria ladeada de hortenses em variações de roxo e lilás; ao sussurro murmurado da água da fonte a cair, límpida e fresca; à paisagem serrana incrustada nas encostas verdejantes, perdida nos horizontes sem fim; ao cheiro agreste das pessoas e dos animais; aos sons melodiosos que encantam as noites e as madrugadas e despertam a poesia inspirada no voo reluzente dos pirilampos e na guizalhada dos grilos; a momentos inesquecíveis!
Formilo e sempre Formilo: um retorno ritualizado e cíclico em busca das raízes da memória afectiva. A saudade forjada no tempo. O passado em dégradé no presente!










terça-feira, 10 de junho de 2014

Flagrante

 
 
O verdadeiro, o autêntico, o genuíno "amigo da onça"!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A (des)união Europeia


O nosso país, por vezes, surpreende até o mais atento observador.
Quem diria que apenas cerca de 3,8% de votos separariam a coligação dos partidos da governação e o principal partido da oposição? Ninguém!
Todos pensávamos que o PSD e o CDS-PP sofreriam uma queda estrondosa, face às políticas económicas e sociais que têm vindo a implementar desde que tomaram o poder. Em contrapartida, supúnhamos que o PS, na segurança do caminho percorrido na oposição, renasceria e faria disparar, em flecha, a percentagem de votos obtidos, para valores há muito inalcançáveis, desde a ascensão de Sócrates.
Grande equívoco!
Os cidadãos deste país baralharam, trocaram as voltas às projecções, às quase certezas de comentadores, de líderes e de candidatos de cada partido.
Afinal quem ganhou? Expressamente, a abstenção, Marinho e Pinto e a CDU, sem qualquer dúvida!
Vitória para o PS? Não me parece.
O que aconteceu, ontem, com o PS, foi, salvo o devido paralelismo, o mesmo que se passou no final da liga Zoon Sagres do ano passado.
Não foi o PS, tal como o Porto, que ganhou o “campeonato”, mas antes o PSD/CDS-PP, tal como o Benfica, que o perdeu. A vitória não se alicerçou em mérito próprio, mas sim no desmérito do adversário.
O que dizer de uma União Europeia (?) tacitamente aceite, mas não sentida, como causa sua, por muitos dos cidadãos dos vários estados-membros? Diria que faltaram os laços de vinculação -o elo afectivo de ligação, o cimento - na construção deste mega projecto, teoricamente perfeito.
A efectiva união europeia só se concretizará quando, no sentir de cada um de nós, a importância do todo se sobrepuser à das partes.
A ascensão das forças eurocépticas, da extrema-direita à ultra-esquerda (Reino Unido, França e Grécia) e a elevadíssima abstenção na Eslováquia (87%) são um indício de que há ainda um longo caminho a trilhar na corporização conjunta do sonho europeu.








segunda-feira, 5 de maio de 2014

Final de tarde e de época


Ontem, no último jogo, da presente época, da equipa da Briosa, no seu estádio, coincidindo com o Dia da Mãe, a direcção da Académica, decidiu (e muito bem, acrescento eu) oferecer bilhetes gratuitos a todos os que pretendessem assistir ao derby contra o Vitória de Guimarães.
Aproveitando a oferta, e já que não o pude fazer com o meu Sporting, fui apoiar a minha 2ª equipa do coração, equipada a preceito: cachecol, óculos escuros, garrafinha de água e companhia (só faltou mesmo a célebre “onda” humana e o bronzeador, já que a orientação da bancada virada a Sul, recebia o Sol de frente, fazendo lembrar um autêntico dia de praia).
Não sei se do cansaço de final de época, se do calor que apertava, se da falta de pernas para aguentar, ou de tudo junto, acabámos por não conseguir soltar o grito totémico de “GOOOOOOLOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!”
Fora isso, foi um final de tarde bem passado, não faltando os treinadores de bancada com as habituais tácticas infalíveis, algumas piadas e apartes da assistência que fizeram sorrir e elevar o espírito.  
No final, o ritual repetiu-se dentro e fora de campo: o agradecimento ao público e à Mancha Negra por parte de todos os jogadores da equipa, do treinador e do presidente, acompanhado de muitas palmas e cachecóis no ar. Um quadro bonito de se ver e muito mais de se sentir. Depois, a procura do frescor apetecido num fino bem geladinho para refrescar a secura da garganta de tanto apoio dado.
Para o ano há mais.









domingo, 4 de maio de 2014

Porque


 Particularmente, hoje, quando assistia à missa dominical, lembrei-me de um tempo em que, todos os domingos à tarde (a maior parte das vezes contrafeita), acompanhava o meu pai à missa.
Naquela altura o “ir à missa” era sentido como uma obrigação não obrigada (parece um contra-senso, mas não o é) e não uma escolha consciente, fruto da vontade alicerçada na compreensão do acto que se praticava. Mas ia por causa do meu pai.
Agora, reflectindo sobre aquele tempo, entendo que não lhe passaria despercebida aquela minha “má vontade” na prática desse ritual semanal e a importância que o mesmo viria a ter no meu crescimento como pessoa, na minha educação espiritual.
Por que me lembrei de tudo isto hoje? Porque foi Domingo, porque a minha filha aceitou ir à missa comigo, porque percebi o seu olhar distraído, os seus gestos vagos, a sua postura corporal (como eu me revi nela) e, acima de tudo, porque fez dezasseis anos que o meu pai nos deixou.
Deixou, mas não morreu, porque as sementes, com que, pacientemente, nos “lavrou”, germinaram, deram frutos e permanecerão.









segunda-feira, 28 de abril de 2014

Soneto do amor e da morte




 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.


 

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A intensidade da memória dos dias


Naqueles fugazes momentos em que o tempo entontece e confunde os vários estados de tempo de cada estação, os finais de tarde, surpreendentemente, explodem em horizontes matizados de cores fortes e quentes, apetecíveis, pincelando a paisagem soberba em aguarelas de poesia, adornada pelo canto melodioso dos pássaros, pelas tímidas folhagens, aqui e ali, a despontar nos ramos, ainda despidos, das árvores acordadas do Inverno, pelo florescer de aromáticos e deliciosos frutos, que hão-de cair amadurecidos e saciados de vida.
Na quietude do dia que finda, na tranquilidade da noite que irrompe, esqueço a consciencialização do eu e permito que os pensamentos se fundam com as memórias de si próprios.